Pelos Campos da Saudade

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Eu caminhava apressadamente pela Rua Monsenhor Rosa – isso faz muitos anos – quando alguém chamou meu nome, ali nas proximidades da Companhia Telefônica. Era o meu amigo Celso Caleiro Guimarães. Rapaz educadíssimo, começou por desculpar-se por tomar meu tempo e narrou-me ocorrência interessante.

Ele me disse que viajava de Goiás para Franca, sozinho. De repente, prestou atenção à música tocada no rádio da camionete. A canção lhe agradou tanto que estacionou para anotar nome e autor da composição. E qual não foi sua surpresa ao constatar que a música Peão, interpretada por Crhistian e Ralf, era de autoria de Antônio Domiciano, nosso poeta sertanejo.

Alguns anos mais tarde, assistindo a entrevista concedida pelo então presidente Lula, fui surpreendido por resposta sua. Disse que a música de que mais gostava era Massa Falida, de Duduca e Dalvan. Desconsiderei o engano do Presidente, vez que a quase totalidade da população ignora os nomes dos autores de suas composições preferidas, atribuindo-as a seus intérpretes. O entrevistado não sabia que aquela canção era de autoria do francano Antônio Domiciano.

Tais lembranças me vieram à mente esta semana.

Tinha compromisso logo cedo, lá na Vila Nova. Resolvi ir a pé. Desci e subi a Rua General Teles, entrei à esquerda, na Avenida Rio Branco. Depois do Posto Brasília, um dos mais antigos da cidade, entrei à direita, subi a rua constituída de um único quarteirão, já que termina na Rua Diogo Feijó. Ao entrar naquela via, procurei a placa. Não estava lá. O vandalismo a arrancara da haste.

Não precisava de placa. Eu sabia onde pisava. O coração oprimido caminhou pela calçada, à esquerda, procurando uma antiga casinha na calçada fronteira. Ali não havia sinal da casa, sequer sinal de escombros. Na esquina adiante, procurei novamente uma placa. Não encontrei.

Não precisava de placa.

Meu coração sabia: estava na Rua 5 de Julho.

As placas se foram em vendavais de estupidez humana, mas o logradouro público permanece e também seu nome: Rua 5 de Julho.

A pequena casa naufragou no dilúvio da ganância imobiliária, mas a sua estrutura, a sua fachada e os seus exíguos cômodos permanecem plantados no campo de meus afetos. Neles habitam o ex-lavrador Sebastião, depois ajudante de caminhão, e sua esposa Maria. A duras penas, tentavam encaminhar os filhos na lavoura nova, na cidade.

Um dos rebentos de Sebastião e Maria teimava em lides estranhas: era aprendiz de carteiro e de poeta.

Andei por toda a extensão da rua onde quase nada mais havia, e tudo se avivava em meus olhos. Diante deles um garoto folheava as primeiras páginas de um livro – A arte de fazer versos – edições Ediouro.

À noite, em casa, pensei no 5 de Julho, na revolta do Forte de Copacabana. Dúvidas me invadiram. Será que alguém em Franca se ocupa do motim ocorrido tão longe, tão distante no tempo – em 05 de julho de 1922?

Será que os francanos sabem onde se localiza a Rua 5 de julho?

Rua e fato me parecem cobertos pelo véu do tempo e do desinteresse, o mesmo que ameaça os que hoje aqui se dedicam a algum tipo de arte.

A velocidade, a pressa, a rapidez das transformações tornam tudo descartável e a memória se esgota no raso, no supérfluo e na vulgaridade.
 

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