Maravilhosos poetas

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Anibal, filho do dr. Moreira e d. Geni, constará certamente da relação de figuras inesquecíveis, quando alguém se dispuser a completar a história de Franca com nomes que fizeram a cidade. Era mais alto que os jovens da época, forte, alegre e, acho, o adjetivo tonitruante foi criado para qualificar sua voz. Jamais passou despercebido nas rodas, bares, salões. Aliás, onde quer que fosse. No tempo em que estudava no IETC, fazia sucesso ao declamar Navio Negreiro, de Castro Alves. E o fez tantas vezes que até hoje, quando escuto ou leio a poesia, inteira ou partes dela, imediatamente sua voz se torna presente e fica forte, como quando a apresentava com força e entusiasmo, nas festas cívicas ou nas simples reuniões de juventude.

O Navio Negreiro integra um grande poema épico chamado Os Escravos e relata o sofrimento dos africanos vítimas do trafico de escravos, nas viagens de navio da África para o Brasil. Começa, intensa: “‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço, brinca o luar — dourada borboleta. E as vagas após ele correm... cansam, como turba de infantes inquietas.” Lá para o meio, outros trechos, memoráveis: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se eu deliro... ou se é verdade, tanto horror perante os céus?!” Ouvíamos boquiabertos a apresentação. Muita gente chorava ao ouvir o trecho “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra as promessas divinas da esperança...”. E todo mundo aplaudia em pé quando chegava ao fim: “Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! Fecha a porta dos teus mares!”. Louvadíssimo, normalmente Anibal emendava com outra poesia, que acreditávamos também ser de Castro Alves, chamada Orgulhosa. Mas não é, descobri.

Descreve o acontecido num salão de baile lá pelo final anos 1800, quando o rapaz pobre, apaixonadíssimo, convidou a moça rica para dançar. Desdenhosa, diz-lhe ser pobre, plebeu, indigno dela. Ele, louco da vida, vai para o meio do salão, pede atenção, fundo musical, e lhe dedica a poesia, Orgulhosa, na qual só não a chama de santa. Não é de Castro Alves, mas de Trasíbulo Ferraz Moreira, poeta e jornalista. Ouvi tantas vezes, que acabei por memorizar o final, que me volta quando me encontro na presença de alguém com quem não simpatizo tanto assim, mas principalmente cada vez que ouço alguma pérola dita pela ex-presidente Dilma, no mais castiço dilmês, ou na tentativa de se exprimir através de frases ridículas pois pinçadas em idiomas que ela não domina. A descrição aplica-se perfeitamente a ela:

“Por isso quando me falas, 
Com esse desdém e altivez, 
Rio-me tanto de ti, 
Chego a chorar muita vez. 
Chorar sim, porque calculo, 
Nada pode haver mais nulo, 
Mais degradante e sem sal 
Do que uma mulher presumida, 
Tola, vaidosa, atrevida. 
Soberba, inculta e banal.”
 
Maravilhosos poetas! 
 

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