Super-Heróis

Por: Sônia Machiavelli

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Na mitologia grega que os romanos assimilaram desde o processo seminal de expansão de seu império, a palavra herói remetia a um semideus que enfrentava desafios com bravura indômita e princípios éticos. A ética, bom lembrar, surgiu formalmente no reino das palavras com o vocábulo heróis. Caracterizados por destemor e força, suas ações visavam especialmente à segurança de seu grupo. Quem nunca ouviu falar de Hércules, Aquiles, Teseu? Figuras arquetípicas, reuniam atributos físicos e morais necessários para superar problemas de dimensão épica.

Surfando nessa vibe, a literatura no Ocidente revisitou através dos séculos esses heróis e suas jornadas. E os recriou também. Mas depois das duas grandes guerras, o mundo precisou se reconfigurar diante das violência e crueldade acentuadas. Os escritores, antenas a captar o futuro, mas também sondas ao que jaz incomodando, perceberam que nem semideuses dariam mais conta da realidade. Criaram a figura dos super-heróis. Nascidos nos quadrinhos, eles saltaram depois para as telas, povoadas a cada ano com novas e extraordinárias aventuras. Superman, Batman, Homem-Aranha, X-Man e outros continuam conquistando público extraordinário.

Herdeiros dos semideuses, os super-heróis, com seus poderes extraordinários, revalidaram o dever de salvar a humanidade de todos os perigos, vivendo em constante luta contra o Mal, seja lá que forma tome, seja lá em que lugar apareça.

Desde o dia 25 deste janeiro lúgubre, tal luta vem sendo travada no interior de nosso país por humanos que não usam capa, não têm martelo mágico, muito menos capacidade de voar ou lançar raios ao espalmar uma das mãos. Vestem uniforme emborrachado que ao final de cada jornada está tão embarreado que nem se divisam suas cores ou texturas. Suas armas são as estacas de madeira e a coragem- mais nada. Salvaram muitas vidas; mas não todas.

Na superfície movediça em que fazem buscas, não há onde se apoiar. Resta arrastar-se devagar e cavar com as próprias mãos. Com cuidado e driblando o cansaço, seguem apalpando o barro, buscando não mais corpos, mas pedaços deles, algo que garanta identificação por DNA e possa levar um restinho de conforto às famílias em luto.

Representante de sua corporação, Pedro Aihara, competente na tarefa de porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas, e incansável nas buscas, se apresentou diante das câmeras com discurso preciso como talhado a cinzel. E no terceiro dia fez lágrimas brotarem nos nossos olhos, quando as vimos nos seus, num triz tremulando junto à sua voz: “Estamos trabalhando como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais.”

Miro os exemplos do jovem tenente e seus colegas e penso que estes sim são nossos verdadeiros heróis, “seres que sentem medo como todos os homens, mas o superam porque há vidas que dependem da coragem deles”, como escreveu um dia Roberto Bolaños. Diante de suas jornadas de altruísmo, esforço e ética em Brumadinho, ouso sonhar que uma geração de homens como eles, caso alçassem instâncias de maior poder, poderiam salvar nosso país, impedindo que ganância, corrupção, incompetência e indiferença à Vida continuem produzindo as lamas que o asfixiam.


  

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