Brumadinho

Por: Angela Gasparetto

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Brumadinho. Não dá para não escrever sobre Brumadinho.

Não dá para não sentir por Brumadinho. E nem para esquecê-lo.

E nisso não tem nada de apologia ao politicamente correto do momento. É que não dá para fingir que não vimos os vídeos dos desesperados e mais, dos animais indefesos que agonizavam sem entender o que estava acontecendo; eles que já são segundo plano, independente das tragédias.

Tudo já foi dito, repetido à exaustão. E todas as opiniões já foram dadas. E já há no ar uma centelha da impunidade que se avizinha.

Um descaso já instituído e um horizonte onde não vislumbramos nada que possa ser feito diferente. Aliás, temos Mariana como precedente.

Brumadinho é vítima, todo mundo já sabe. E é redundante também, mas Brumadinho é a síntese do nosso Brasil.

Aquele que é esquecido nas providências mais essenciais. Aquele país feito de uma gama grande de brasileiros trabalhadores, mas ainda crédulos.

Aquele brasileiro que é feliz por ter seu trabalho e faz vista grossa pelo descaso disfarçado na excelência nas vistorias. E os fiscais por motivos diversos, que não cabe agora levantar, mas já a suspeitar, seguiam a risca do pré-determinado neste país, que é, vamos deixar como está para ver como é que fica, que é redundante também. E então notificavam que estava tudo certo. Os laudos atestavam a segurança coesa da barragem já obsoleta.

É, o brasileiro é crédulo. Tem um misto também de displicência aliado à credulidade. Mas nada justifica uma tragédia da qual não podemos ficar indiferentes. Até porque, a despeito da “credulidade”, o mais simples funcionário apontava as falhas da barragem.

Então agora, daqui para frente, vamos continuar a fingir que não vimos o crime, o assassino e principalmente as vítimas. Vamos continuar fingindo que está tudo bem, e crer que o que houve foi um acidente e a destruição de famílias, meio ambiente e economia são efeitos colaterais do mesmo?

E até quando a impunidade e a displicência serão armas nas mãos de quem comanda do topo da pirâmide a vida dos brasileiros crédulos, sim, mas dessa credulidade que os faz se expor ao perigo, mesmo sabendo que a tragédia os ronda e a ineficácia dos grandes os ignora.

Como se já se disse na internet, a lama é de todos. E todos temos culpa, os culpados e os inocentes.

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