O filho de Levinda

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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A animação era geral. A noite de São João prometia diversão para todos os moradores da fazenda. Era costume, naquela região de Minas Gerais, uma grande agitação, quermesse, barraquinhas, leilão. Bandeirinhas coloridas, inúmeras flores, de formatos e tamanhos diferentes, em papel crepom de vários tons, ornamentavam o local. Um sanfoneiro e outros músicos davam o tom festivo, fazendo uma prévia para a dupla sertaneja, esperada com ansiedade.

A grande fogueira aquecia e iluminava ao redor. Enquanto fogos eram espocados, Levinda afastou-se de todos e saltou sobre uma moto, que tinha como condutor seu namorado, e saíram em alta velocidade em direção à cidadezinha mais próxima.Com apenas quinze anos e esperando um filho, deixou pai e mãe desnorteados e foi viver sua história. Decidida, não se importou com os comentários sobre sua fuga.

O tempo apagou as mágoas, os avós se reaproximaram, ela muito se orgulhava de seu menino. Gilson, apesar de franzino, desenvolvia-se bem, era estudioso e obediente. Calado, preferia a companhia do celular às conversas triviais entre as pessoas. Isolava-se na sua ilha da felicidade, onde tudo era bom, bonito e esperançoso. A internet lhe permitia ser feliz conforme seus desejos.

Bem distante dali, uns três mil km, no Piauí, Nivaldo o conheceu. Trocaram mensagens e, logo mais, promessas de amor, entre elas a de ir buscá-lo para viver com ele.

Gilson, prestes a completar dezoito anos, recebeu a visita de Nivaldo, mas quando o apresentou à mãe, que nunca imaginara tal relacionamento, ela, tresloucada, expulsou-os de sua casa. Eles procuraram um primo que os apoiou e quando seus documentos ficaram prontos, o filho de Levinda, à revelia dela, partiu com o jovem Nivaldo.

Uma mãe que enfrentou preconceitos para ter seu filho, agora, vê-se impotente para aceitar a escolha dele. Seu sofrimento era visível!

O pai, menos passional do que a mãe, tentava acalmá-la, enquanto recebiam notícias de que ele estava bem, na casa da mãe de Nivaldo, que os acolhera e já havia preparado um quarto para os dois.

Gilson continuou os estudos, tem um bom emprego, está feliz, mas nunca voltou a sua casa. A mãe o ama, é deveras infeliz sem seu filho por perto, arrepende-se, com amargura, por não ter tido a devida compreensão naquele momento.

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