Pragas

Por: Luiz Cruz de Oliveira

“A praça é do povo”.

A reivindicação era de Castro Alves, feita aos brados, ao tempo em que a polícia dissolvia, com o argumento do cassetete, manifestação estudantil no centro de Recife.

O tempo passou, o poeta se foi na asa do condor, restou sua mensagem, a praça ficou do povo. E ela só lhe tem sido tomada em esporádicas horas de exceção: ditaduras e epidemias similares.

Em Franca, império da serenidade democrática, a praça tem sido, ultimamente, surrupiada do seu dono. Constato danos e ouço reclamos.

- Parece que acabou a praça...

- Não tem autoridade, ninguém liga...

- O povo perdeu a praça...

Há exageros, o caos ainda anda longe. Mas são justificados os temores, os lamentos e os prognósticos negativos.

O descaso e o roubo vieram aos poucos.

Primeiramente surgiram os pombos. Chegaram em pequenos grupos, procriaram, sujaram a praça, plantaram piolhos nos canteiros e nos bancos e nas alamedas e no Relógio do Sol. Provocaram conflitos entre o poder terreno e o espiritual.

O descaso e os defensores dos animais foram os vencedores.

Os pombos são bichinhos bonitos e pacíficos. Convivem tranquilamente (com seu eterno arrulho e seu voo curto) com a nova praga que invadiu a praça: cães de todas as raças, de todos os tamanhos, de todas as cores. No começo, eles aterrorizaram mulheres, crianças e incautos de toda ordem; depois, parece que a população se acostumou a conviver com o perigo, com mudança de rota e com o constrangimento de pisar porcarias malcheirosas.

Por outro lado, ao demarcar seu espaço, o mais fiel amigo do homem presta inestimável favor aos frequentadores da praça, sendo, até agora, a única autoridade a combater a mais recente praga que inferniza os pedestres: os ciclistas que invadem a praça, calçadas e calçadões com suas “baiques” – verdadeiras máquinas de guerra que ameaçam sobretudo velhos e crianças.

Assim, sujeitas a mordidas, as pessoas “engolem” a cachorrada. Preferem o risco de hidrofobia a enfrentar sozinhas a horda de ciclistas que invade as calçadas e praças, principalmente nas manhãs de sábado.

A continuar como está, ou, pior ainda, se continuar a sucessão de ataques à praça, só restará aos cidadãos se exilarem e ficarem em casa, vendo a vida pela janela.

À espera de que surja um novo poeta pregando a libertação dos modernos escravos.

 

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