'Vento na Blusa'

Por: Sônia Machiavelli

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A crônica e o folhetim têm filiação comum. Gêneros literários diferentes, surgem na época em que os jornais cresciam em tiragens, tornando o conteúdo acessível ao público carente de recursos para adquirir livros. Em nosso país a crônica se desenvolveu como em nenhum outro, desde que Machado de Assis começou a publicar as suas na “Gazeta de Notícias”. O leitor brasileiro sempre gostou de crônicas e escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e até o grande Carlos Drummond de Andrade lhes imprimiram valor maior que o de registro de acontecimento fortuito. Caio Fernando Abreu, com seu tom autoral, fez delas peças literárias até hoje resgatadas com emoção.

Uma pesquisa rápida pelo acervo do centenário Comércio da Franca poderá mostrar que em nossa cidade os cronistas foram muitos desde que o jornal começou a circular. Revelará também como a crônica evoluiu com o tempo. Se antes prendia-se a fatos banais, aos poucos alçou voos na direção do relato de viagem, da resenha, da alegoria, do ensaio, do perfil, da ficção, das memórias... Ou seja, transformou-se num gênero híbrido, que se afastou do factual por conceder ao autor a expressão de sua visão subjetiva dos seres humanos e da complexidade do existir.

Considerando que o berço da crônica tem sido ainda o jornal, é preciso dizer que seu destino final é quase sempre o livro. Já perdi a conta de quantos francanos acolhidos nas páginas deste “Nossas Letras” reuniram em volume suas publicações. Ângela Gasparetto vem se somar a eles, preservando as suas no volume lançado neste sábado, 16, ao qual deu o título de “Tempo de Vento na Blusa”, que me fez lembrar expressão de Fernando Pessoa em verso célebre: “velas pandas”. É que a autora possui esse dom de usar as palavras para inflar a alma do leitor, convidando-o a navegar por espaços que ela resgata com respeito e beleza, ainda que muitas vezes com melancolia também.

Os textos de Ângela Gasparetto são reconhecíveis pelo uso de figuras de linguagem marcadas pela delicadeza. Sua escrita lembra ourivesaria, tal o cuidado dedicado à forma. O interesse temático costura ambientes externos com vivências interiores. Talvez por isso, a palavra-chave para adentrar este mundo que se quer verbalizado seja “janela”, recorrente na prosa que classifico como poética. O substantivo “ventania”, da mesma família de “vento”, palavra importante no universo semântico do livro, une-se a verbos de movimento, como “caminhar”, e de mãos dadas com “ janela” vai definindo a dinâmica dos textos. Vistos em conjunto e retrospectiva, estes assumem característica de narrativa fragmentada, com um “eu” lírico conduzindo memória e tempo presente: “E da janela da minha vida, sei que por todas as águas, por todas as flores, por todas as dores, apenas caminho.”

O tempo enquanto efemeridade e o ser enquanto impermanência são temas que conferem ao conjunto de crônicas reunidos neste livro recém-lançado a necessária unidade. Essas duas questões eternas, que a todos afetam, são tratadas de forma amorosa, podendo contagiar o leitor com esperança, uma das possibilidades de todo texto literário.
 

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