As saúvas

Por: Maria Luiza Salomão

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...elas invadiram o meu canteirinho e, da noite para o dia, diligentemente, acabaram com uma arvorezinha nascente, todo o vaso da azaleia depenado – só os galhos nus. Atenta, eu observava a carreata com os pedacinhos de folhas picadas, a procissão da destrutividade. Um batalhão de soldados miliciados que, paulatinamente, acabava com meu pequeno roseiral de mini-rosas, amarelas, vermelhas e brancas, esvanecendo todo o meu esforço também diligente de ter um meio ambiente bonito, ecologicamente sustentável, que me traz beija-flores, canarinhos, lagartixas, lesmas, minhocas, e também os indefectíveis pernilongos, porque nada é grátis e somente bom, belo, sem ser também terrível e, por vezes, mortífero.

...elas devastaram em horas o que levei anos, décadas, para formar, com carinho, esforço e dedicação.

- O que tanto acumulam estas saúvas? Elas já foram protagonistas de romance de Lima Barreto, no começo do século passado, que, na nascente República, nascida torta, com atentado contra o presidente e assumindo militar no poder, eram as causas da miséria nacional: a maior praga agrícola. Uma terra em que tudo dá, o país do futuro, e as saúvas desancando sonhos.

Visionário Lima Barreto! Quem são nossas saúvas hoje? É por essas e por outras que a literatura ajuda a História a ser mais precisa. E eu que achava que em se plantando tudo dá...

- Depende da semente, depende do cuidado, depende do esforço, depende, de uma cultura que preserve, que mantenha o que é da criatividade e da construção a salvo do que a ataca sem dó nem piedade.

“ para ter paz é preciso saber o que é a guerra”, parafraseio Freud em uma carta a Einstein, antes da fatídica II Grande Guerra Mundial. Haja sabedoria para discriminar as saúvas do momento brasileiro.

“Deus nos sacuda” (Guimarães Rosa).
 

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