O Milagre

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Pessoalmente não conheço essa senhora, mas seu filho, que me contou o fato, garante que ela, embora de idade avançada, ainda era dona de seu nariz, fazia quase todos os serviços da casa, assistia seus programas de TV favoritos e, entre estes, não perdia uma missa rezada pelo Padre Marcelo Rossi, transmitida diretamente do Santuário do Terço Bizantino, embora hoje essas missas sejam realizadas no imenso Santuário Nossa Senhora da Mãe de Deus – Theotókos, localizado em Santo Amaro, São Paulo. Um belo dia ela cismou e disse que queria assistir a uma missa ao vivo lá em São Paulo e que era para seus filhos darem um jeito de levá-la até lá.

- Mãe, a senhora não está em idade de aguentar uma viagem dessas. São mais de 400 km de rodovia e, chegando lá, vai haver uma multidão e a senhora não vai suportar ficar tanto tempo em pé procurando um lugar para sentar. Além do cansaço, teríamos que arranjar hospedagem, transporte, alimentação, cuidados com a saúde, etc.

- Não quero saber; arranje uma cadeira de rodas para eu sentar quando estiver cansada e vocês me empurram para dentro da igreja e no meio do povão. Vocês não falam que essa tal de internet pode fazer de tudo? Então vê se providencia tudo, que nós vamos na semana que vem.

O filho incumbiu sua irmã de providenciar tudo que fosse necessário a essa epopeia, afinal mãe só temos uma e seu pequeno desejo, diante de todos os que ela nos proporcionou quando crianças, não seria assim um grande sacrifício.

Alugou-se uma cadeira de rodas, acomodada no porta-malas do carro, completado com as devidas sacolas, roupas, lanches, remédios e, o mais importante, muita disposição para atender o desejo da mamãe.

No dia do evento, já em São Paulo, a mãe sentada na cadeira de rodas, foi sendo levada apenas pela filha - pois o varão, muito velhaco, conseguiu escapar da incumbência - através da multidão - imaginem vocês um local que comporta cem mil pessoas - o mais próximo possível do altar. As pessoas, vendo a velhinha na cadeira de rodas, foram abrindo caminho até quando um dos auxiliares da organização direcionou todos os cadeirantes para frente da plateia, bem diante do altar, para poder receber as bênçãos bem próximas ao padre.

A missa, no caso, é um show à parte, com músicas cantadas pelo Padre Marcelo Rossi e realmente atrai milhares de pessoas fervorosas na sua fé. No encerramento, após as bênçãos e as saudações, quando as pessoas começam a se movimentar para sair, nossa personagem, cansada de ficar sentada por mais de uma hora naquela cadeira de rodas, resolver ficar de pé para dar um refrigério ao seu assento e uma esticadinha nas pernas, quando um dos ajudantes da organização, que estava praticamente ao lado dela, num gesto repentino de alegria e de fé, ergueu a cadeira que ela estava sentada e bradou em alto e bom som: “Milagre, milagre, milagre”.

A filha, que não estava muito longe da mãe, não sabia se escondia o rosto, se desmentia o coroinha, se justificava para as pessoas ao redor ou, simplesmente, desaparecia no meio da multidão. A mãe, não entendendo o que realmente tinha acontecido, recebeu efusivamente muitos abraços, beijos e saudações e, mais calma, procurou sua filha para retorno a casa.

Já em Franca, a filha fez o irmão prometer que não contaria a ninguém essa façanha, mas como ele é meu amigo, pedindo sigilo absoluto, contou-me essa história, da qual eu, em nome dessa amizade, acabo de narrar apenas o milagre, deixando os santos de fora.

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