E aí, ordene o caos...

Por: Breno Carrijo

394394

Cate, rasgue à risca igual saúva e ponha no fogo as cartas que te dei.

Contadas dúzias de lamúrias, mexa no fundo da gaveta e avalie novamente as despedidas. Saiba que também propuseram concórdias, os pingos dos is que, traçados em círculos irregulares, substituíram acentos, há muito, esquecidos. Esquente o café aguado e acenda seu cigarro mentolado, como naquela mania antiga de quem começa o hábito do fumo cedo. Escolha uma música qualquer, baixo volume. Ou então, sintetize o seu silêncio: de burgaus espalhados esperando na encosta um arremesso irreversível. Desmantele-se das lembranças. Do sorriso cativo, do cativeiro em que você mesmo se põe. Aporia? Aposte na solução mais difícil. Um desafio para o seu senso. Trague, como um sonso, as fumaças tontas dos tocos de Palo Santo que te deram no último amigo oculto. Procure a cura. Desembrulhando aquelas flores mortas, ainda que um pouco úmidas – de mais a mais, desbotadas – emoldure-as junto de teu ódio e tédio, ressecando. Já na sala de jantar, exponha um terço dos seus medos, ao lado do espelho, e espera.

Proponho, ainda, outra solução. Se falhadas as prerrogativas desse adeus afoito, deixe que a doença da dor de doido te domine. Agora, lembre-se de todos caindo a teus pés, o efeito dominó. O domínio doentio dos que se pensam deuses. Procure em suas enciclopédias, desempoeirando as páginas cróceas, reconsiderar os declínios dos impérios: o Otomano & o Romano & o Califado Omíada & relembre como se fossem a parte indevida de seu passado. Ou, o começo do seu pesadelo.

Aceite a decadência. Considere-se malsã, e, aí, talvez, achará melhor livrar-se de todos os tomos da Barsa ou Mirador, hoje, enfeites, infestados de traças que andam, também, a roer a estilística da sua nova coleção de poesia contemporânea. As feras se alimentam do ido, e, ainda mais, das expectativas que guardamos para o futuro.

Mais tarde, quando encontrar aqueles envelopes escondidos, debaixo da cômoda, rabisque as folhas todas. De cabo, a rabo. Até que não se possa ver parte alguma do que transcrevi – daquele imenso compêndio vetusto – dos versos dum certo Ghérasim Luca. E, caso encontre as 100 páginas pretas, cópias poeirentas de uma temporada no inferno, a letra miúda, à tinta prata, tente, a todo custo, entredentes, cachimbá-las. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras