Roma, Amor

Por: Sônia Machiavelli

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Há tempos não assistia a um filme como “Roma”, que hoje à noite pode sair com várias estatuetas da cerimônia do Oscar, retransmitida para milhões de telespectadores. Já andava pensando que a nova era em que vivemos, marcada por velocidade e impermanência, elidira por completo roteiros como o de Alfonso Cuarón, produtor de “O labirinto do fauno” e diretor de “Gravidade”. Estava enganada. Antes de mais nada: Roma é nome de bairro de classe média da cidade do México. E, sim, anagrama perfeito de Amor, sentimento que conduz as memórias do cineasta na história declaradamente autobiográfica .

Cuarón homenageia Libo Rodriguez, empregada que exerceu profunda influência afetiva em sua infância. No filme seu nome é Cleo, vivida de forma magistral por Yaltiza Aparicio. Ela passa os dias cuidando da casa de Antônio e Sofia, das crianças, da avó delas, do cachorro, dos pisos, das compras, das roupas... É a última a se deitar, depois de apagar todas as luzes. Adela, cozinheira e amiga, não leva melhor vida. Mas nem uma nem outra se queixam e esperam ansiosas pelas matinês de domingo. Cleo tem no afeto às crianças, que também a amam, um lenitivo para a falta de perspectivas.

Contada devagar, num ritmo que permite a quem assiste sentir e refletir ao mesmo tempo, a história simples instiga pelos detalhes intencionalmente repetidos. Antônio demonstra muita dificuldade para colocar o carro na garagem estreita. O cão precisa ser contido para não escapar. Muitas gaiolas são penduradas no pátio cinzento. De repente uma louça se espatifa no chão.

Nesse contexto, o carro será uma metáfora de nosso corpo e este de nossa alma, tantas vezes esfolada? Escapar para fora pode representar riscos? A prisão seria simbolizada pela edícula esdrúxula implantada na laje? A falta de liberdade pelas gaiolas? Os cacos da louça quebrada acenariam para perdas que sofrem Cleo e Sofia ao mesmo tempo, abandonadas por seus companheiros?

Paralelamente aos dramas humanos, o olhar social de Cuarón contempla o México dos anos 70, quando o Partido Revolucionário (PRI) governava sob tensão. Camponeses de origem indígena, como Cleo e Adela, tinham tido suas terras confiscadas e viviam em condições de miserabilidade. As mulheres buscavam no serviço doméstico uma alternativa à mendicância ou à prostituição. Contra esse estado de coisas, protestos constantes agitavam a capital, e um deles, conhecido como “Massacre de Corpus Christi”, terminou com centenas de mortos. A cena faz parte do filme, disponibilizado pelo Netflix.

A fotografia em p/b é belíssima, resultado de talento e esmero. A trilha sonora, precisa. O enquadramento, perfeito. Esses três pilares do filme conseguem algo que é especialmente raro: traduzir o silêncio, a solidão e a nostalgia de mulheres que vivem numa sociedade violenta e machista, onde suas vulnerabilidades são postas à prova, levando-as a agir com a força e resiliência típicas do seu gênero.

O final não comporta qualquer ilusão. A vida é uma tarefa de Sísifo para muitos. Resta algum tipo de Amor para ir resistindo em Roma, um lugar que pode ser renomeado a qualquer momento.
 

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