Samba ou filosofia?

Por: Ulisses Pinheiro Lampazzi

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No mundo do samba, não é raro ouvir de algum sambista afeito às tradições que samba “tem que ter filosofia”. Não a filosofia clássica, acadêmica, voltada à construção de novos conceitos voltados sobretudo aos intelectuais. A filosofia do samba é a sabedoria da vida, das ruas e da dor. O sambista é um legítimo intelectual orgânico, o corpo físico no mundo dos homens, a antena artística ligada às ideias, às frestas do mundo concreto, onde capta o que faz seu gênio. O samba, como praticamente toda a música negra produzida nas Américas, é uma música de resistência, sobrevivência, de invenção de possibilidades para suportar uma realidade dura. O sambista busca a metafísica, a espiritualidade não apenas porque nos terreiros de candomblé ele ganhara forma, mas porque apenas num olhar superior ao cotidiano ele poderia encontrar sentidos mais amplos para dignificar sua própria existência. Carregar uma dor passa a ser ato de nobreza. Perder um amor e seguir, segurar a pobreza, recorrer à malandragem para seguir mais um dia se torna um ato de coragem. Negros ou não, a lista de compositores que fizeram sambas sobre a vida e seus percalços cotidianos ou existencialistas é enorme: Cartola, Paulo da Portela, Noel Rosa, Walter Alfaiate, Donga, Monarco, Zé Keti, Ataulfo Alves, Geraldo Pereira entre outras dezenas que poderia citar. Destes, no entanto, o maior de todos na lida filosófica talvez tenha sido o genial Nelson Cavaquinho. Boêmio, cachaceiro, pouco afeito ao alinhamento de vestuário de outros sambistas, voz esganiçada, óculos de fundo de garrafa, características que assim como em vários filósofos, talvez o tenha ajudado em seu olhar descolado da vaidade daqueles que se enquadram perfeitamente ao mundo. Seu tema central, junto ao seu parceiro favorito, Guilherme de Brito: a passagem do tempo. O tempo que traz a morte mas que também apazigua e ensina a viver. Bons exemplos para ilustrar este olhar de Nelson Cavaquinho:

“Sei que amanhã, quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear, fazendo de ouro um violão. Mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Por isso é que eu canto assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora! Me dê as flores em vida, o carinho a mão amiga, para aliviar meus ais. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais.” (Quando eu me chamar saudade)

“Quando eu passo perto das flores, quase elas dizem assim: Vai, que amanhã enfeitaremos seu fim. A nossa vida é tão curta! Estamos neste mundo de passagem.” (Eu e as flores)

“Sempre só e a vida vai seguindo assim, não tenho quem tem dó de mim. Estou chegando ao fim.” (Luz Negra)

“Quando o tempo avisar/Que eu não posso mais cantar/Sei que vou sentir saudade / Ao lado do meu violão / E da minha mocidade.” (Folhas Secas)

A qualidade destes versos é assombrosa, sobretudo em ambiente intelectual que só a duras penas reconhece a contribuição cultural de um Brasil sem educação formal. Nelson reconhece sua finitude e tece sua narrativa que, se em alguns momentos se assemelha a um lamento, não briga de fato com sua própria fragilidade perante a finitude de tudo. Entende, aceita, se dobra e é vitorioso moralmente ao fazer dela fonte de beleza e vida. É o mesmo ofício de Cartola em “O mundo é um moinho”, de Wilson Batista e José Batista em “ Meu mundo é hoje” e Paulinho da Viola em “Sinal Fechado” ou “Documento”: a busca pelo reconhecimento da dor e de sua capacidade de elevar a condição humana a outro patamar. Quem tem olhos abertos e ouvidos atentos sabe que o samba é a face mais nobre daquilo que nos é genuíno: a luta, a força, a coragem, a criatividade, o ensinamento de que se ganha e se perde e que daqui nada levamos. Tudo aquilo que os clássicos da filosofia também nos ensinaram.
 

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