Deixem-me ir

Por: Ligia Freitas

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A morte é o ponto sensível do ser humano.

Peguei-me chorando copiosamente por causa do falecimento do jornalista Boechat, assim como aconteceu quando morreram Ayrton Senna e Michael Jackson.

Um senhor tocou a campainha da minha casa para entregar o jornal e eu o atendi como quem acabara de receber uma notícia de falecimento de um ente querido.

-Sra. Ligia, aconteceu alguma coisa?

-Não, está tudo bem, muito obrigada.

Que vergonha de mim, quanto estranhamento em relação àquele sentimento aparentemente desconexo do meu ser.

Quero entender esse gatilho de lágrimas, pensei: deixe estar, e comecei a dar passagem para a morte invadir o meu peito e transbordar em alguma explicação.

Percebi a morte nos acontecimentos diários de nossas vidas, feito perdas necessárias.

Morrer no sentido de se desligar por completo de algo, colocar um fim, ponto final, esquina que vira e abre a possibilidade de um novo caminho.

Essa é a morte em vida que segue, e com certeza eu tenho algumas para contar.

Deixei morrer o convívio com a família e amigos, para me dedicar aos estudos e passar no concurso público de Cartório. Deixei morrer um amor antigo para me apaixonar pelo meu marido. Deixei morrer a plena liberdade para me tornar mãe e ando deixando morrer um pouco de mim, para nascer uma escritora livre para escrever.

Essa é a morte como fim e o fim como meio.

Mas quando o fim é um fim em si mesmo, ao menos nesta dimensão, aí a morte é despedida, partida de alguém que amamos, aí não há muita explicação não.

Desejamos a imortalidade dos nossos pais, e principalmente, a dos nossos filhos. Encaramos a morte com tristeza, não aceitamos o adeus, nem tampouco a ausência física.


Mas a beleza das flores está exatamente na singularidade e a vida também só é bela porque cada um partirá com uma idade.

Como diz Milton Nascimento “tem gente que veio só olhar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente a sorrir e a chorar, e é assim chegar e partir, são dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida”.

O mistério persiste: será que um dia nos encontraremos? Acho que a morte só pode ser mesmo a evolução do espírito, e de tão sublime que é ninguém volta para nos contar.

Deixemos para saber por lá. Enquanto isso, abro as mãos para a única coisa que tenho entre os meus dedos: o PRESENTE.

Aos entes queridos, digo que não quero estar apenas ao lado, mas sim por inteiro, para que quando a minha hora chegar eu possa lhes pedir: “amem-se cada vez mais e, por favor, deixem-me ir”.
 

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