Máscaras

Por: Sônia Machiavelli

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“- Oh! Uma história de máscaras! Quem não a tem na sua vida?” Com estas duas frases João do Rio inicia o conto “O bebê de tarlatana rosa”. Tarlatana é dessas palavras que caminham para extinção, mas foi bastante usada como sinônimo de tecido leve e vaporoso, apropriado a roupas femininas. Isso no começo do século XX, quando se passa a história contada pelo narrador, Heitor Alencar.

O texto tornou-se narrativa icônica da literatura brasileira. O nó do enredo está centrado no encontro fortuito de Alencar com pessoa fantasiada de bebê, em baile popular carnavalesco no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Marcado pela ambiguidade, o discurso transpira luxúria na descrição plástica da multidão que dá vazão aos seus instintos. E desencadeia uma atmosfera de mistério em torno da criatura fantasiada que seduz o narrador, também folião. Graças a elipses intencionais, no começo se ignora se a roupa rosa encobre homem ou mulher. Mas, desfeita a dúvida, o narrador crava outra, que é a chave do conto. Reside num detalhe de adereço que oculta parte da face do “bebê”.

Há na verdade duas histórias em uma: a de Alencar, atraindo atenções na elegante sala de jantar intimista com seu relato; e a que ele conta sobre sua experiência no mundo exterior. É pois uma ficção mascarada dentro da própria ficção, conforme já apontou um crítico. O conto desvela as antenas do autor- jornalista, ficcionista e dramaturgo - que anuncia o Modernismo ao demorar seu olhar sobre as ruas; no povo mais que nos abastados; no cinismo da burguesia; nos subúrbios que começavam a modificar a paisagem urbana; nos fatos prosaicos que movimentavam os dias. Transportando a outros escritos tais temáticas e estilo, Paulo Barreto perfilou a alma carioca com tal propriedade que o pseudônimo que escolheu, quando passou a escrever crônicas na Gazeta de Notícias, caiu-lhe como luva: João do Rio.

As duas frases iniciais da narrativa, acima reproduzidas, convidam o leitor a pensar nos disfarces, mas não só os carnavalescos. A forma ambígua como foram construídas sugere saída do tema específico, o Carnaval, rumo a outro, tão presente na vida dos humanos. Que atire a primeira pedra quem nunca precisou representar em algum momento de sua existência, parece sussurrar nas entrelinhas o narrador, amparado em Allan Poe, o mestre do gênero de horror. Máscaras servem muitas vezes para ocultar situações dolorosas.

A origem da palavra aponta para o árabe, o persa, o latim. No seu berço podia ser sinônimo de bruxo, monstro, feiticeiro; mas também de pessoa, emoção, alma. Os sentidos nunca se excluíram. Talvez porque com uma máscara o homem pode exercitar audácias, experimentar alteridades, viver fantasias, extravasar emoções, liberar demônios, encobrir deformidades, ir ao encontro do desconhecido. E depois, sem ela, voltar à dura realidade.

O texto integral pode ser encontrado na Internet. Há também vídeos, um deles excelente, com Antônio Abujamra. Eles podem mostrar a você, que se interessou pela história, qual era o mistério do “bebê de tarlatana rosa”.

Aqui não conto. Spoilers são broxantes. E eu respeito demais o leitor.
 

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