Ícones

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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A caixa veio para mim, quando eu já era maior de idade e ela tinha quase o dobro da minha. Presente de mamãe, que a ganhara quando ainda solteira, do meu pai. Num dia dos Namorados, ela contou. Moravam na mesma rua. Prático, para namorar, bastava atravessá-la. Casas quase em frente uma da outra. Dizem, minha mãe era brava, geniosa, não deixava a batata assar e por qualquer coisa de nada, estourava. Dizem, meu pai era o oposto. Ela morena, filha do Joaquim Junqueira, mulato de nascimento, teve juventude ceifada quando o pai descobriu seu namoro com aquele italiano bonito, sedutor, loiro e ainda por cima com dois olhos que mais pareciam pedacinhos do céu. Tirou-a da escola, tão logo descobriu o romance: ia casar, não ia? Estudar para quê? Ela nunca o perdoou por essas e muitas outras situações. O relacionamento fervia quando chegava época de Carnaval. Ele, louco pela festa, naquela época tão diferente: tinha corso, cordões, desfile. Minha tia Elvira, irmã dele, preparava-lhe fantasias, às escondidas, claro, porque se mamãe descobrisse, teria Boletim de Ocorrência imediatamente. Nunca entendi porque cunhadas podem ser às vezes tão cruéis quando se trata de relacionamentos amorosos dos irmãos. A verdade é que elas nunca se bicaram. E chegavam a arrepiar, assim que janeiro terminava e os batuques carnavalescos começavam, porque por mais que papai negasse, minha mãe que não era boba, percebia a movimentação dos amigos, naquele entra e sai da casa em frente. Aí entra a história da caixa, ganha num Dia dos Namorados, que ficava sobre a cômoda do quarto de mamãe, cheia de papeizinhos, lacinhos, bilhetes, flores murchas, ingressos de cinema, de circo, guardanapos, santinhos, fotos, doces lembranças que só fazem sentido quando a gente está apaixonada. Na primeira noite de Carnaval, eles devidamente acompanhados por vovó, ou alguma tia, iam para a praça, acompanhavam a movimentação. De repente, eclodia insuportável dor de cabeça em papai, mal que o acompanhou a vida toda e que lhe aparecia sempre e enquanto viveu, quando ele não queria cumprir algum compromisso social, que ele odiava. Tinha que ir embora, deitar-se. Dormir. E iam. Ele se despedia, tonto de dor, entrava em casa, minha tia e a turma à espera. Era a conta de trocar a roupa pela fantasia, pulavam o muro lateral da casa, saiam em outra rua. Mamãe bufava, mas não lhe restava senão ficar à espreita, porque ele só chegava quando amanhecia. Contavam que ela abria a janela do quarto devagarinho, jogava a caixa pela fresta, os badulaques espalhavam pela rua, ele catava tudo, guardava, e só aparecia para namorar com a caixa nas mãos, quando o carnaval terminava. O estrago nas laterais e incrustações na madeira é evidente. Presente dado por mamãe para mim, olho para ela, tenho saudades de tempo que não vivi. E, nesta época de carnaval, particularmente, a lembrança me é ainda mais querida. Estranha coincidência, papai morreu num 5 de março, em plena terça-feira gorda da festa.        

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