Escritores

Por: Sônia Machiavelli

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Uma das vantagens da amizade genuína é o desejo de compartilhar o que é valoroso. Quando nos encontramos diante de algo belo e bom, pensamos nos amigos que saberiam avaliá-lo. E ficamos ansiosos para que eles também entrem em contato com o que nos motivou. Sob esse aspecto, sinto-me privilegiada, pois tenho amigos que me sinalizam livros, músicas, imagens, espetáculos e... filmes. Acertam sempre, pois sabem o que me inspira.

A duas queridas devo momentos recentes de fruição do estético e de reflexão sobre a aventura que é escrever. Uma delas me apresentou ao norte-americano “The Wife”; outra, ao argentino “O cidadão ilustre”. Não é sempre que nos chegam obras-primas sobre o sofrimento, o desencanto, a ansiedade, principalmente as precariedades de todo artista que elege a palavra para transmitir sua visão da realidade. Nas duas o Nobel é um catalisador de emoções represadas pelo que desvelam de raiva, num caso, e desencanto, no outro. A coincidência se detém aí.

“The Wife” concorreu ao Oscar de Melhor Atriz para Glenn Close. Que a estatueta não lhe tenha sido concedida causou decepção até entre seus pares. O trabalho sutil nos mostrou personagem que na pele da esposa de um escritor prestes a receber o maior dos prêmios é confrontada com um passado de equívocos. O vaso se quebra quando, em Estocolmo, uma frase (“Ela não escreve”) tem efeito de gota d’água sobre copo cheio, ou daqueles detritos a mais que romperam a barragem de Brumadinho. Vem a catástrofe. O que se discute a partir daí é tanto a questão da autoria quanto a relação doentia de submissão, dependência, insegurança, machismo, espoliação. Porque se Joseph tinha ideias, era Joan quem escrevia os livros.

“O Cidadão Ilustre” é outra joia que o Canal Netflix disponibilizou já no final do ano passado. Assinado pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat , mostra um protagonista que também é escritor laureado com o Nobel, Daniel Mantovani, interpretado com maestria por Oscar Martinez. Levando existência abastada em Barcelona, e convidado a participar de eventos de excelência nos quatro cantos do mundo, surpreende sua secretária ao declinar de todos e aceitar o mais modesto: receber o título de “Cidadão Ilustre” em sua cidade natal. Em Salas, interior remoto da Argentina, o contato entre o intelectual cosmopolita e irônico e os moradores simplórios e rudes deflagra uma série de situações que caminham do humor para o grotesco.

Antes que a história se feche em final ambíguo, o diálogo entre o Nobel e o recepcionista aspirante a escritor converte-se num dos momentos mais tocantes do filme. Ao elogiar os contos do jovem, aconselha-o a continuar simples, invocando Kafka cuja simplicidade formal mergulha o leitor em profundidades abissais. E termina com uma frase que considerei antológica: “ Fazer o simples é um gesto de generosidade para com o leitor.”

Depois, num salto no tempo, ele responderá a alguém que lhe pergunta sobre o objetivo da literatura: “Como todo artista, o escritor busca tornar a vida menos horrível”. Mais não disse nem seria necessário.

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