De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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De primeiro, observavam-se, nos professores, tentativas de preservação de nossa língua, evitando-lhe a agregação de vocábulos estrangeiros. A louvável intenção, às vezes, atingia o exagero. Isso me fica claro quando volto ao passado.

- Vai lá na Praça da Estação, traz o chofer de praça. É pra levar sua mãe pra Santa Casa.

A fala do pai era pausada, mole, mas as pernas do moleque eram espertas, conheciam atalhos, rapidamente deixavam para trás as trilhas que cortam quarteirões desabitados, os trilhos da estrada de ferro.

- Sô Jairo, o pai mandou chamar o senhor pra levar a mãe pra Santa Casa. É fiado. Sábado o pai paga o senhor.

Na escola, as lições eram diferentes.

Não devemos falar chofer, esse termo é galicismo. Nós devemos fazer uso do vocábulo pátrio: cinesíforo. Cinesíforo, entenderam?

Um jovem acompanhou as irmãs, os vizinhos e as vizinhas, participou de piquenique.

- Vamos catar gabiroba.

O cerrado estava vazio de gabiroba, de quaisquer frutas. Pegou foi carrapato de variadas espécies. Mas retornou feliz, com a capanga repleta de olhares, de suspiros, de verdes amanhãs. E jurando para si mesmo que se casaria com a vizinha.

Na escola, aprendeu outras coisas.

- Preste atenção: você não participou de um piquenique. Piquenique é galicismo. O vocábulo português é convescote.

O pai veio com novidade, botou portão de zinco no corredor que levava ao quintal, e no qual guardava a carroça. Com tinta amarela e letras tremidas, anotou a advertência: garage.

Na escola, o filho recebeu instrução.

- Não empreguem o termo garage. Garage é galicismo. Deve-se grafar: garagem. Garagem, com a letra “m” no final.

O time do Caramuru foi jogar na Fazenda Cachoeira, e um rapazote, muito magro, conseguiu compor o trio que viajou na boleia, ao lado do motorista. Na volta, contou vantagem.

- Não tomei chuva. Fui e voltei na cabine.

 O professor era incansável.

- Meus jovens, evitem empregar a palavra cabine. Cabine é galicismo. O correto é cabina. Ca-bi-na, com a no final.

A terra girou, girou.

O movimento provocou aragem, depois vento forte.E, em meio à ventania nos chegou toda espécie de estrasngeirismo: vocábulos, modas e músicas, conceitos e consumos e quereres.

Convescote, cinesíforo, chofer... tanta coisa caducou. Ameaçam caducar o fiado, o remendo na calça e na camisa e primores outros que havia de primeiro.

De primeiro, só se ouvia a música do próprio rádio, condenava-se a leréia, e ninguém tinha vergonha de ser pobre.

Era assim.

Mas isso era de primeiro.

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