A máquina de fazer inimigos

Por: Ligia Freitas

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Escrever um livro de crônicas e poesias talvez não seja difícil para mim, já que tenho um compilado de textos dos compromissos com jornais, blogs e revistas.

Difícil está sendo achar o fio condutor que amarra um texto ao outro, o ponto de partida de um caule estrondoso que se emaranha em reflexões.

Mas quer saber mesmo a verdade, caro leitor, o mais complexo de tudo está sendo transformar minha autocrítica em trampolim para a conquista e acabar com o discurso sabotador “eu não sou boa o suficiente para”.

Explico melhor, amo tanto o universo dos livros que tenho a pretensão de me tornar um, mas meu inimigo maior, aquele que tem o meu nome e se parece comigo, sopra em meus ouvidos:

-não é para o seu bico.

-então é para o bico de quem?

--de quem tem no bolso ou nas letras quilate.

-Mas eu quero voar, sou passarinho.

-Você tá mais para cachorro que late.

-Tudo bem, tudo bem, desisto.

Sento, depois deito, depois durmo e chego a roncar e a sonhar alto (uma noite de autógrafos, um prêmio literário, uma cadeira na academia de letras).

Ops caí da cama.

-Poxa vida, cadê minha máquina de escrever? Vou colocá-la à venda.

-Mas você não tem máquina de escrever, já está na era do computador, esqueceu?

-Não, estrupício, não me esqueci, saia da minha frente.

-Então o que é isso que eu estou vendo, não é uma máquina de escrever?

-Não, isso é uma máquina de fazer inimigos.

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendida para um bancário.

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