Racismo

Por: Sônia Machiavelli

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Ato falho é um equívoco na fala, memória ou ação provocado pelo inconsciente- explicam os psicanalistas. Através dele o desejo se desvela, a partir do pressuposto de que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontecem por acaso. E o que é reprimido de repente aparece, de alguma forma. Falamos até pelos poros, disse Freud.

Nosso querido e internacional Carlos de Assumpção, que usa palavras na esgrima contra preconceitos, mostra perfeito exemplo de ato falho em um de seus textos. Conta a história da menina negra que sofre bullying na escola. Tomando conhecimento do fato, a professora chama a atenção da colega branca. Mas a menina negra imediatamente rebate, com o que cito de memória: “Pode deixar, professora, quando ela crescer Deus vai castigar ela, que vai casar com um negro!”

Esse episódio fotografa, via poética, um flagrante da complexidade do racismo que ainda é nódoa no mundo dito civilizado e democrático. Assistindo ao filme “Barrow”, baseado na biografia de Barack Obama, uma cena ficou gravada na minha memória. Presente numa festa de casamento da elite branca de Washington, o protagonista, elegante e de modos refinados, vai ao toillete. Enquanto lava as mãos, entra outro convidado que faz o mesmo. Este, ao procurar a toalha de papel para se enxugar, não a encontra e pede a Barrow/Obama que lhe passe uma. Isso feito, sai dali. Não sem antes colocar uma nota de dólar na bancada, com um “thank” para aquele a quem viu como empregado.

Trazendo o tema para mais perto, há poucos dias, uma juíza de Campinas, ao condenar a trinta anos de prisão por latrocínio um réu, escreveu: “Vale anotar que ele não possui o estereótipo-padrão de bandido, possui pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido”. Mais próximo ainda: a moça que cuida há 18 anos de minha casa me contou recentemente mais uma de suas experiências desagradáveis. Pretendia comprar um presente de casamento. Entrou numa loja famosa e ficou parada dez minutos: embora o lugar estivesse vazio, ninguém veio atendê-la. “Eu me senti invisível”, disse. A sobrinha, que a acompanhava, falou: “Tia, é porque somos negras, acham que não temos dinheiro para pagar”. Por fim, uma ex-aluna, hoje universitária, numa conversa a respeito do assunto, me confessou o seguinte. Descendo do seu carro à noite, na rua escura onde mora sua irmã, foi abordada por um jovem negro, que queria indicação de como chegar à rodoviária. Estava vestido como qualquer rapaz de sua idade e se mostrou educado na abordagem. Mas, no primeiro instante, ela temeu por um assalto. Depois se encheu de vergonha ao pensar se teria tido essa reação se o rapaz fosse branco.

Trouxe este assunto para a página porque acredito que precisamos falar mais e honestamente sobre isso. Sem hipocrisia. Somos ainda muito racistas. E esse nosso racismo que pretende muitas vezes se disfarçar no discurso é deslavadamente revelado nos atos falhos. Pelo menos quatro séculos de escravidão ainda persistem dentro de nós que nos achamos sinhô e sinhá, esquecidos, maioria, dos pés nas senzalas.

  

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