Sem título (Trecho inédito do novo romance de Vanessa Maranha)

Por: Vanessa Maranha

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Petronilia vinha de escurecer o mundo. Não. Vinha de clarear os monotons sofisticados da vida de Elizabeth. Tinha dezoito anos e chegava por indicação da consulesa do Congo. Petronilia, a iaô do candomblé, rainha, noiva dos deuses sanguinários, imolava-se aos orixás todos os finais de semana, seus olhos de azeitona a tudo viam. Sabia que exceto por Liz, não havia quem a quisesse. Os risos daqueles seres róseos às suas costas de divindade esculpida em ébano,- que ela passasse ao largo, sem toque nem olhos, aquela gente não se olhava nos olhos; seus talheres, espadas de gentileza.

Não porque fosse mulher de recônditos ou oscilação de significados. Ao contrário, tinha um ermo em si, era plana e rasa em sua cara de feições achatadas. Elizabeth lhe perguntava dos costumes no Congo, queria saber de sua mãe, a vida descalça, seus orixás de devoção, quanta fome tinha a europeia, solidão entre tantos. Que não pudesse se elevar, Petronilia sabia, nem Liz permitiria – a queria submissa, embora admirasse suas histórias. A negra aprendera ali que amizades são relativas. Entreouvira pelos vários jantares onde transitava, avis rara ostentada por Elizabeth, mulheres destruindo reputações de outras mulheres com uma ou duas palavras enviesadas, às vezes mesmo sorridentes, neutralizando ameaças sumariamente, rebaixando alguma qualidade alheia pelo apontamento cirúrgico do defeito da outra.

-Na minha tribo as mulheres não se destroem. Lá elas mandam. E se apóiam, não precisam se defender das outras, disse distraidamente, enquanto preparava o banho de Liz.

-Você tem vontade de voltar para lá, Petronília? Baixou a cabeça, o semblante entristecido, olhos perdidos numa distância que a patroa não saberia dimensionar. -É que não existe mais “lá”. Os homens do outro lado do rio não suportaram mulheres que mandavam assim e arrasaram com tudo. Escapei porque, no ataque, eu estava na cidade, mas não há mais nada naquela terra que lembre a nossa passagem por lá.

Petronilia repetia a latomia do Cordeiro de Deus. Estar na igreja, aqueles ecos de que a grandiosidade é capaz, uma acústica elevada, os enormes vitrais fazendo o sol colorido e o homem de preto no altar lhe pareciam muito mais definitivos do que todos os seus anos de rainha nas matas do Congo. A guerra civil a reduzira a uma espécie de tatu fugitivo atravessando buracos até chegar às embaixadas e pedir auxílio à mulher clara e triste feito uma rosa de ontem que lhe salvasse do desterro.

Já sabia que tudo é troca, algo lhe seria solicitado; arear panelas, limpar imundícies alheias, qualquer coisa melhor do que o horror da dizimação, fora ela afinal rainha, não se daria facilmente à morte. Lânguida se deixou conduzir, estendida como brinquedo novo da madame – logo compreendeu -, uma espécie de animal exotique de circo. Lembre-se, tudo troca. E assim perseverou, à vontade de Elizabeth, aprendendo rapidamente a sua língua, não os seus códigos, estranhos demais, seus modos de abruptamente se retirar das circunstâncias.  

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