Prazer, sou Peixes

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Prazer, sou Lúcia. Lúcia Helena. Nunca acreditei em destino. Acredito em escolhas. Acredito piamente que, ao fazer opção por um determinado caminho, sua vida segue um determinado curso. Não acredito em destino e sou Peixes: dois espécimes nadando em direções opostas, correndo um em volta do outro, sem possibilidade de encontro.

Sou Peixes, sou duas. Uma delas, a “peixa” cor de rosa, romântica, doce, submissa, carinhosa, passiva, que vive na Lua, sonhando acordada, feito boba. Convivendo com ela – o que não é fácil – está a outra. Voraz, aguerrida, corajosa, ousada, atrevida, briguenta, contraditória, a que não tem medo (apesar de saber medir conseqüências) de assumir o que quer e ir em frente quando se dispõe a fazer alguma coisa. A maior vantagem da primeira: saber esperar vencer resistência, às vezes a sua própria. Da segunda: recuar quando precisa. Luta, porque não sabe perder, mas ao perceber sua impotência, sai de cena, admite ter sido derrotada, levanta, sacode a poeira e, lá na frente – distância imprevisível - consegue dar a volta por cima porque é volúvel como a roleta, deusa do luxo e do prazer.

Não acredito em destino, sou Peixes e possuo tesouros imensos, quais sejam grandes experiências para lembrar; perceber oportunidade de aprendizagem a todo instante; reconhecer revelações. Tudo isso caracterizado pela busca incessante do resultado final de sinuosas, complicadas, emaranhadas e confusas equações, que pessoalmente me encarrego de formular. Minha vida é uma sucessão de grandes momentos. Dolorosos e doloridos momentos. Deliciosos e alegres momentos. Inesquecíveis momentos. Momentos: de permanente, pouca coisa. Não raro, me surpreendo. Com as descobertas, por exemplo. De repente percebo que é fácil, muito fácil, ser sonho na vida dos outros. O que não é fácil é ser realidade. Já fui sonho e imaginação de muita gente e fui realidade na vida de quase ninguém.

Sou, ainda, mulher que sobe na jabuticabeira com as netas, adora comer pastel na feira; que se enrola com o guardanapo se fica nervosa no jantar de gala, deixa o garfo cair no restaurante pela mesma razão. Sou mulher que se lambuza com sorvete, assovia com os dedos, disputa campeonato de arremesso pela boca de sementes de fruta à distância, é craque no bugalho e absolutamente perfeita na produção de pipas – tem até medalha. Típico exemplar, espécimen corriqueiro de todos os nascidos sob o signo de Peixes. E se orgulha de ter nascido no dia dedicado ao santo mais feminista da história.

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