Jambos

Por: Sônia Machiavelli

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A ficção infantil de Monteiro Lobato influenciou o gosto pela leitura de milhões de brasileiros. Infundiu prazer de ler à minha geração, à de meus filhos, à da neta de 20 anos, à do neto de nove. Pelas páginas de seus livros a criança que nos habita acessa, ainda hoje, aqueles espaços lúdicos onde a alma se sente liberta e feliz.

Com linguagem espontânea e criaturas que representavam nossa brasilidade, Lobato surpreendeu e encantou, embora ele já fosse conhecido dos adultos quando publicou “Narizinho Arrebitado” em 1921. Depois viriam dezenas de títulos, que nos anos 70 ganhariam a TV na série “Sítio do Pica-Pau Amarelo.”

Além de criador, Lobato foi recriador ao adaptar clássicos para crianças, como Dom Quixote e Robinson Crusoé, Pinóquio, Peter Pan, heróis gregos como Hércules. E algumas fábulas de Esopo, às quais conferiu tom autoral. Ao mesmo tempo, fundava editoras que faliam, entrava de cabeça na campanha em defesa do petróleo, criava polêmica ao publicar o artigo “Paranoia ou Mistificação?”, crítica ácida à exposição da pintora Anita Malfatti, ícone modernista. .

Completados 70 anos da morte do escritor, a obra entrou em domínio público e as editoras se preparam para relançamentos. Ressurgiu então problema que fermenta há algum tempo nos foros de discussão pautados pelo politicamente correto. O movimento negro reclama do jeito como Lobato perfilou a cozinheira tia Nastácia, principalmente através das falas da prolixa Emília. Ambientalistas consideram absurdo que Pedrinho tenha organizado caçada com o propósito de matar uma onça. E por aí vai.

Uma das editoras escolheu Pedro Bandeira, especializado em literatura infanto-juvenil, para cuidar de “correções”e tornar a obra mais palatável aos segmentos afetados. Vejo com reservas isso, pensando, por exemplo, até que ponto se tem o direito de mexer nos originais de um ficcionista. De repente imagino se não seria um sacrilégio alterar a idade de Lolita para que Nabokov ficasse isentado da pecha de pedófilo. O assunto é complexo.

Esperamos que impere o bom senso. Temo distorções a partir do que pude colher numa entrevista de Bandeira, onde diz que Narizinho era “cor de jambo”, o que corresponde à verdade textual. Mas ele avança o sinal ao subverter a intenção do criador, sugerindo que a personagem tinha a pele escura, pois “o jambo é quase negro.” Isso pegou mal. Primeiro, porque as cores da fruta variam segundo as regiões do país. São de tom vermelho escuro no norte-nordeste; amarelo-rosado no sudeste; branco e até verde mais ao sul. Segundo, porque o próprio Lobato registou em artigo que sua inspiração para criar Narizinho tinha sido sua vizinha, a menina Guiomar Novaes, que ao crescer se tornaria pianista de renome internacional. Seu nariz era arrebitado e a pele clara, como atestam imagens no Google.

Bandeira poderia apenas ter lembrado que as cores da fruta, cujo nome vem do sânscrito, variam conforme as regiões onde crescem. Independente dessa variação, cada uma traz em si qualidades intrínsecas de sabor, textura e perfume que são a sua alma e as distinguem no seu reino. Como as pessoas.


 

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