O trem de ferro

Por: Thereza Rici

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Já vai longe a época em que para iniciar minha carreira profissional precisei transferir-me para uma cidade simpática e pequena, chamada Colina. Para ali permanecer, pois não pretendia residir definitivamente no local ou ficar por muito tempo, fui hospedar-me na pensão de dona Guará.

O casarão antigo e majestoso por sua arquitetura, muito bem cuidado apesar de sua longa existência, tinha um visual romântico, com suas inúmeras janelas de madeira ( como as que a gente costuma ver nas casas das fazendas rurais), ficava no lado mais alto da cidade. Logo abaixo do casarão passava a estrada de ferro que servia de ponto divisório entre a cidade lá embaixo e a famosa pensão de dona Guará no alto do morro, de modo que, quem olhasse do centro, via perfeitamente o casarão imponente de frente para a cidade e também a estrada de ferro, por onde trafegavam os trens.

Às cinco horas da manhã, invariavelmente, pois o meu quarto ficava de frente para a rua, eu acordava com o apito do trem, que ainda longe anunciava sua passagem. E eu ficava ouvindo o seu ruído desengonçado e seu apito estridente, quando passava em frente à casa e aos poucos, à medida que se afastava, o ruído e seus apitos iam diminuindo até se perderem de vez e eu voltava a adormecer embalada pelo romantismo do trem.

E para a minha alegria, todas as vezes que precisava me deslocar até à cidade de Barretos, para as reuniões profissionais, usava o trem, cujas janelas abertas, além do visual sempre exuberante da natureza, trazia a brisa refrescante e inundava a minha juventude de sonhos e esperança de sucesso.

Embora tenha deixado aquela cidade e a bela casa de dona Guará, nunca me esqueci daquele trem, que ainda madrugada trazia com seu resfolegar e seus apitos estridentes, o despertar de um novo dia.

Sempre amei os trens e muitos anos depois tive a felicidade de atravessar países da Europa, viajando neles e por onde transitam até hoje os moradores daqueles países.

E fico imaginando se tivéssemos nós, povo brasileiro, trens resfolegando e apitando pelo país afora, seríamos mais felizes e menos pobres, com certeza.

        

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