Analogias

Por: Sônia Machiavelli

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Era fresca, clara e recente a manhã em que, caminhando, vi à distância sobre o gramado algo que despertou minha curiosidade. Míope, não conseguia identificar o que eram aqueles pontos de brilho intermitentes. Ora me pareciam floquinhos de neve, impensáveis em verão tropical; ora pedrinhas de brilhante, daquelas que na ciranda da infância imaginava ser o objeto precioso que poderia ladrilhar a rua, caso ela fosse minha. “Só pra ver meu-bem passar.” Quem seria o autor de tão linda cantiga?- às vezes ainda me interrogo, descrente de que por aí meninas continuem a cantá-la em tempos robóticos.

Fui me aproximando, cheguei bem perto, precisei me abaixar para ver que se tratava de centenas de gotículas de orvalho presas em folhas irrompidas entre a relva. Essas folhas, de formato arredondado, possuíam um tipo de pelos que seguravam as gotas, impedindo-as que rolassem, tombassem, evaporassem, sumissem num átimo. Os raios solares incidiam sobre elas, provocando o efeito cintilante. Não sei bem por qual motivo rememorei algumas ilustrações de Alice no Pais das Maravilhas.

Havia sombra no comprido trajeto que se desenhava à minha frente. O Sol recém-nascido garantiria por minutos a beleza do momento a ser desfrutado pelo olhar. Naquele instante estético me lembrei de comparação ouvida em criança, sobre algo tão belo que parecia “uma gota d’água na folha de inhame”. Por falta de experiência concreta, e imaturidade, não havia compreendido então o frescor da metáfora, tornada parte do discurso da gente do campo que migrava para as cidades.

Fiz uma foto, para retomar a imagem outras vezes, quando sentisse saudade do tempo que fugia. E segui refletindo sobre o quanto a natureza nos oferece e o tanto que dela desdenhamos nesses tempos difíceis, onde as coisas devem ter um preço para que sejam valorizadas. Quantos serão os que se detêm diante do espetáculo gratuito representado por nossas floridas sibipirunas, espatódeas, flamboaiãs, resedás, cássias, manacás... Deve-se contar nos dedos os que algum dia se perguntaram sobre quem as plantou para que nos oferecessem democraticamente beleza a cada estação do ano. Ah, as flores... “Futilidades”- mentalmente registrarão uns tantos.

Entretanto, as rosas de Malherbe e as de Cartola, os girassóis de Van Gogh, as catleias de Proust, os cactos de Rachel de Queiroz, as flores baldias de Chibo Buarque, as samambaias tristonhas de Josaphat Guimarães França, os miosótis de Florbela Espanca, as violetas de Líbia Gasparetto, os ipês do Rubem Alves, os lírios do campo do Evangelho, as quaresmeiras que tingem de roxo a paisagem podem ser todos encontrados por aí, apreciados em seus desenhos singulares, analisados nos sentidos de efemeridade, resistência, humildade, luxúria, generosidade, luta pela vida. E pluralidade: ao lado da figueira acolhedora que levou décadas para se tornar monumental, desabrocha a flor que dura só um dia; exibe-se outra que produz fruto tão bonito quanto venenoso; cresce a carnívora que se alimenta de insetos; avança a que suga energia de outras espécies no entorno. Como no reino humano, no verde impera a diversidade.

Para o leitor que chegou até aqui, deixo a pergunta pontual: qual é a espécie vegetal que o representa? Ou com qual não se identifica, de jeito nenhum?  

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