A pedido dos leitores

Por: Vanessa Maranha

396131

(Mais um trecho inédito do
próximo romance de Vanessa Maranha)

“A lâmina da inveja roçando-lhe a jugular, passou a veementemente negar as suas origens. Começou pelos banhos, gotas de lixívia pingadas a cada dia em maior quantidade na água da banheira para o clareamento de si, o que afinal resultou num tom a mais de avermelhamento nas juntas e trechos de pele mais sensível, jamais a brancura sonhada.

De bom grado, à sua curiosidade e carência sem fim, não entendia o que era ter tudo como se quase nada, ao mesmo tempo. Aos poucos ia se fazendo concordante, o bicho de estimação de Liz. Petronília ia à igreja com a patroa, inebriada pela beleza nos vitrais e modos contidos daquela cristandade, diferentes das apoteoses às sextas-feiras vermelhas, seus êxtases sob o batucar cardíaco do candomblé. E carregava velas nas procissões, na voz mais estridente e surpreendentemente alta no entoo das ladainhas coletivas.

Pisava a igreja e cobiçava a sua grandiosidade, seus ecos, tanta lindeza refinada. Imaginava-se em cultos ali, naqueles modos mais sóbrios; depois pensava que um dia construiria um templo assim para nele viver feito santa. Então acordava: nem em três vidas haveria com o que erigir tal grandeza. Chegava então ao delírio: erguer uma catedral dentro de si, o que se daria comendo pequenos bocados, todos os dias, de tijolos quebrados.

A cada fragmento terracota engolido, um pedaço da catedral crescia nas suas profundidades. Torres de pináculos, sinos de cobre já com os seus dobres graves e ameaçadores; mosaicos nas pilastras. Era plano secreto. Nem Elizabeth sabia dos seus repastos, tampouco do seu projeto ambicioso, suas alucinações siderais. Ninguém conhece o que no outro se desenvolve embrionariamente e se gesta à magnitude. De projeto passou a gosto, o sabor seco e denso da argila, até a barriga inchar, fígado colapsado, a iaô convencida de que a catedral em si se concluía. Engolir então, face gloriosa, um crucifixo para encimá-la, arrematar o cristianismo votivo, sua autofagia, uma cruzada dentro de si, redimida, renascida, quem sabe branqueada. Às vésperas dos seus dezenove anos essa menina morreu, um crucifixo atravessando os intestinos; o estômago endurecido de argila, empedrada, de dentro para fora.” 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras