O escritor, meu amigo

Por: Angela Gasparetto

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Costumo dizer que a literatura me salvou. De nada trágico, mas daquela incompreensão tão usual que costuma acometer alguns adolescentes.

Ingenuamente costumava pensar que lendo chegaria aonde quisesse, e que todas as respostas estariam ali. Não é bem assim, mas é quase.

Meu primeiro amigo foi o Mickey Mouse, e posteriormente o Tex, herói justiceiro muito em moda nos anos 70. Lia-os desarvoradamente, até porque era o que havia de novidade. Depois conheci Machado de Assis. E com Machado, a ironia ingênua, mesclada ao o sarcasmo salutar deram novas cores à minha vida. Porque Machado é atemporal, basta dar uma chance a ele.

Mas a alegria mesmo veio com Rubem Braga e Fernando Sabino, aqueles que nasceram homens e morreram meninos. Eles e seus amigos eram um time que se reunia na Av. Atlântica no Rio, junto com Vinicius, Drummond e muito outros escritores. Ali, eles comentavam sobre a vida, o mundo e a literatura. Quando lia estas histórias de Sabino, eu sentia um desejo imenso de partilhar da sua amizade e desfrutar daquela visão tão possível de mundo.

Ria às gargalhadas com os seus livros e me enternecia com os de Rubem Braga. Lê-los era semelhante a ser inserida em uma vida mágica, fadada a falhas e risos, coisas tão escassas naquela época. Sentia-me tão próxima de Sabino, que depois que ele faleceu, nunca mais consegui ler nenhum livro dele. O mundo ficou mais triste só de pensar que ele não está mais aqui para descrevê-lo com seu olhar singular e travesso.

Agora, meu companheiro inseparável foi Graciliano Ramos que me permitiu ser triste e depois Érico Veríssimo, que me possibilitou questionar. Marcel Proust que fala à minha alma, Lispector que testifica a minha loucura, Ligia F.Telles, e muitos outros, todos testemunhas da possibilidade de ser quem somos.

Mas o que queria dizer aqui, voltando ao Fernando Sabino, é que a literatura amplia nossa rede de amizades, mesmo que à distância. Identificar-se com uma escrita é sermos mais plurais, tolerantes e aceitáveis, até consigo próprio.

E hoje na minha incipiente pretensão à escritora, já amealhei tantos amigos, os quais se sentiram de alguma forma representados na dor ou na alegria.

Assim, cada vez mais o meu horizonte se amplia e creio que também o de outros que escrevem ou amam o que leem, o que traz uma alegria sem tamanho, porque a identificação através da escrita, nos situa no mundo fazendo-nos mais humanos e possíveis, e consequentemente mais felizes.
 

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