Dedos de menina

Por: Ligia Freitas

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Depois da tempestade vem a bonança, dizem os médicos, os padres, a natureza e até as mães de antigamente.

Vi um menino triste chorar a morte da sua mãe. Vi um senhor passando fome pelas ruas da cidade.

Vi o mundo de cabeça para baixo diante de tanta atrocidade.

Vi monstros mundanos. Lembrei-me da pequenez do ser humano.

Lembrei que o mundo continua, apesar dos desenganos.

Lembrei-me da minha avó, dos cafunés de criança e da criança que ainda vive em mim, do pão com manteiga e do cheiro de naftalina que saía do armário ao som do telefone de linha tocando: trim trim.

A saudade é soberana, a vida escorre pelos meus dedos com o tilintar do relógio cuco.

A cristaleira eu carreguei comigo feito um navio em tempestades criadas por mim.

Abro-a rotineiramente e inspiro seu perfume que encandeia o meu ser.

É preciso qualquer droga de fé para viver.
 

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