Tia Vanica

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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No baú de quinquilharias, herança da avó materna, existem lembranças familiares que têm valor ora sentimental, ora histórico, ora lúdico, às vezes nenhuma relevância. Faz parte delas, a foto datada de 31 de março de 1932 que perpetua tia Vanica e Doralice, a filha estranha. O registro atesta que, independente da minha aquiescência, sim, elas são partes de mim, eu descendo delas.

Reconhecida e chamada de tia por todos os familiares próximos ou distantes, tia Vanica era irmã de Maria Cândida, a mãe de minha avó materna Ritinha. Didinha, irmã mais velha de vovó, coetânea de tia Vanica, foi a guardiã de seus irmãos menores, quando a matriarca morreu no parto. Os nomes de batismo de tia Vanica, Didinha e de tia Fia, outra tia adorada em virtude de sua excentricidade e alegria, infelizmente jamais tive a curiosidade de perguntar. Tia Vanica, a tia, Didinha e tia Fia, sobrinhas, tinham praticamente a mesma idade. Tia Vanica foi casada e teve dois filhos, Felizardo e Doralice. Moravam em Uberlândia, num bairro simples, típica casa de periferia, onde tirávamos fotografia com cobertor ao fundo para esconder a precariedade do quintal, evidências de pobreza e, claro, o galinheiro e o chão coberto por folhas e frutas caídas das árvores. E a bacia de cobre, onde várias gerações se banharam.

Ninguém falava sobre o assunto, que era tabú. Tia Vanica escondia a mão direita dos olhos de todo mundo. Estava sempre com ela enrolada em embornal misterioso de saco de algodão branco, alvejadíssimo, mágico, típico saco sem fundo. Dele retirava doces e balas; restinhos de bolo; cacau; santinhos de primeira comunhão de várias gerações; dinheiro; fotografias antigas de gente morta e de gente viva; novenas; o terço com o qual nos benzia; folhinhas de alecrim, arruda, para ajudar na benzeção. Burlávamos vigilância e atropelávamos os bons costumes, pedíamos que tia Vanica nos mostrasse a mãe defeituosa. Ela fazia suspense, enrolava mais ainda o embornal na mão e o retirava rapidamente, simulando gesto de ataque. Não sobrava um menino que fosse ao seu redor. Ficávamos aterrorizados, ela se escangalhava de rir, levávamos pito e não emendávamos. Na visita seguinte, ao menor descuido dos adultos, lá estávamos atormentando tia Vanica. Saudades dela.

Considero-me verdadeira colcha de retalhos e me pego a pensar nos aspectos que, reconheço, herdei destas antepassadas. E naqueles outros, de Doralice, a prima estranha, cujas bizarrices, esquizitices e excentricidades que estão registradas em histórias pitorescas que, à menor pressão, qualquer dia conto.
 

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