Déficit

Por: Sônia Machiavelli

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Acada dois anos o Instituto Pró-Livro promove no país ampla pesquisa chamada “Retratos da Leitura no Brasil”. Seu objetivo é avaliar a quantas anda o interesse do nosso povo por essa extraordinária capacidade humana- o ato de ler. O último resultado, divulgado recentemente, é preocupante no que diz respeito à leitura espontânea, que independe da obrigatoriedade curricular: menos de dois volumes ao ano por indivíduo. Ainda que avessa a comparações, não posso deixar de mencionar que franceses leem sete; ingleses, seis; norte-americanos, cinco; sul-coreanos, nove. E olhando em retrospectiva constatamos com preocupação que ocupamos sempre os finais do ranking, o que leva a pensar que essa dificuldade precisa ser enfrentada porque suas consequências de ordem cultural, social, linguística, reflexiva e analítica são muito sérias.

Como em quase tudo na vida, não existe única razão para explicar o déficit. Fala-se da influência da revolução digital, que se oferece ganhos também contabiliza perdas. A chuva contínua de informações fragmentadas na Internet estaria prejudicando a condição para a contemplação e o raciocínio linear. O imediatismo das redes condicionaria os internautas a reações superficiais e enraivecidas que os impediriam de avaliar com sensatez a complexidade do mundo. E assim como a introdução da escrita alterou a forma como o cérebro humano funcionava à época dos adoradores de Amon, a era digital, que teve sua gênese no Vale do Silício, está sendo responsável por reprogramar outra vez a dança de nossos neurônios. Os simplistas reuniriam esses três motivos para explicar o afastamento dos livros, na medida em que todo ato de leitura implica concentração, imersão, envolvimento, capacidade de sonhar. Mas temos outros; um deles diz respeito à formação do hábito de leitura.

É sabido que há os que nascem mais predispostos a adentrar o mundo mágico das narrativas e dos poemas; e os que apresentam alguma resistência em se deixar levar para universos regidos pela palavra literária. Mas todos podem ser motivados desde muito cedo. O hábito de leitura se forma e se desenvolve na infância. Conheço grandes leitores que começaram a ter íntimo contato com livros de plástico ainda na banheirinha. Se não foi possível cultivar o hábito no lar, entre vozes, gestos, mãos e afetos familiares, que o seja na escola, onde professores entusiasmados abrirão os portais de mundos maravilhosos ao oferecer um título, ler um trecho, declamar um poema, falar com alegria de um enredo, irradiar energia ao traçar o perfil de um escritor. O amor de um professor pela literatura pode ser contagiante.

Educação, fundamental para o desenvolvimento de qualquer país, passa obrigatoriamente pela leitura. Cada página lida pode estimular o pensamento, a imaginação, a análise crítica, a reflexão sobre a realidade e o mundo psíquico, o respeito à diversidade, a admiração pela riqueza de uma língua, o reconhecimento da complexidade da história universal e da história de cada nação.

Com mais e melhores leitores, vai se reduzir a hipótese de ouvirmos um brasileiro dizer que o nazismo foi fenômeno de esquerda, que a Terra é plana e que o aquecimento global não existe.

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