Aposentadoria

Por: Roberto de Paula Barbosa

396434

O ano de 2019 começou bem, mas bem mal, e entre as coisas ruins para o povão, que é quem mais sofre com as mudanças nas altas esferas políticas, está a da reforma da previdência que, dizem, o país vai quebrar se não tirarmos mais um pouco do populacho, preservando, logicamente, os privilégios da cúpula e das grandes empresas. Discussões à parte, pois a minha opinião vale tanto quanto um pernilongo prensado entre uma boa palmada, fiquei remoendo minhas lembranças e ocorreu-me um fato acontecido há muito tempo, quando o Rio Grande ainda era brejo, com uns primos nascidos e criados numa fazenda no município de Aramina, nas barrancas daquele rio, que nos divide com o Triângulo Mineiro.

Primos daqueles meus primos também nasceram e cresceram em um pequeno sítio vizinho, onde labutavam e tiravam o sustento da terra e do trato com os animais. Quando o menino chegava ao ponto de aguentar uma enxada e ficar acocorado embaixo de uma vaca para ordenhá-la, meu tio dava-lhes serviços e pagava-lhes os dias trabalhados, ajudando os primos na azáfama diária e cujas tarefas não tinham fim. Como a família aumentava a cada ano, chegou-se a um ponto que o sítio já não era o suficiente para manter a prole unida e não necessitava de tantos trabalhadores, resolveram mudar-se para a cidade, onde abundava empregos diversos e melhores condições de vida. Venderam as terras e demais pertences e vieram para Franca, onde compraram um terreno, construíram uma pequena casa, e cada um procurou seu rumo, empregando-se em fábricas ou abrindo pequenos negócios.

Depois de alguns anos, o mais velho dos irmãos, Adailton, tendo trabalhado numa fábrica tempo suficiente, acrescido dos anos labutados na roça, já podia se aposentar, mas teria que provar aquele período, pois não havia contribuições ao INSS. Nosso personagem apropriou-se de documentos que seu pai havia guardado, buscou junto ao meu tio cópia das páginas do caderno que ele anotava os dias e pagamento efetuados, uma foto de um dia de trabalho, e convocou como testemunhas os seus - e meus - primos Alceu e Anselmo, com a mesma faixa etária e que haviam mourejado juntos. No dia da audiência, perante as autoridades e advogados, o juiz, examinando o processo, inquiriu as testemunhas se eles conheciam o requerente e se eles realmente tinham trabalhado na fazenda de seus pais. Após a resposta positiva o juiz, vendo a foto, perguntou quem eram aquelas pessoas. Meu primo rapidamente respondeu: esse primeiro sou eu, o segundo é o Adailton, o terceiro é o meu irmão Anselmo, o quarto é o Edmilson, irmão do Adailton, e essa é a Vaca Borboleta.

O juiz, sofreando o riso, perguntou aos advogados do INSS: “Os doutores têm alguma contestação?”. Diante da resposta negativa, o Adailton foi aposentado.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras