Gaby

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Durante a infância adorava sentar no colo de vovó Ritinha para ouvi-la contar as histórias de cada fotografia guardada no pequeno baú que ficava sobre seu guarda-roupa. Não era exatamente baú. Era pequena mala de papelão, com arremates de tiras de madeira, miniatura das malas grandes que usávamos para viajar, que eram transportadas sobre o teto das jardineiras, simulacros ancestrais dos ônibus modernos, que não corriam mais que 40 quilômetros por hora. Todas as malas iam sobre o teto do veículo e, quando chuviscava, embora estivessem cobertas por lona, sofriam um bocado. Amoleciam. Se a chuva apertava e pior, ventava mais que o normal, a lona desamarrava, voava e as malas viravam, literalmente, minguau. Prejuízo grande para os usuários, que as companhias de transporte terrestre driblavam o quanto podiam para ressarcir. Naquela época não havia órgão para receber as queixas e a pouca vergonha e o pouco caso com o cliente já eram esporte nacional.

Numa daquelas tardes de verdadeira tertúlia, ela me mostrou foto de uma de suas sobrinhas, pertencente ao lado rico da família, no dia de seu casamento com guapo rapaz. Teve festa, muito doce, bolo imenso, almoço, jantar, música, até lua-de-mel o que somente casais abastados conseguiam ter. Após o casamento ele continuou como caixeiro-viajante, estava sempre fora de casa. Ela, absolutamente do lar. Tão do lar, que fechava os olhos para não ver os trejeitos femininos com as mãos, as falhas na voz, as reviradas de olhos que ele produzia quando contava suas histórias, hilariantes, por sinal. Quando estava em casa, o que era raro, dominava as conversas, contava piadas, casos engraçados. Polarizava atenções. Ela nunca deu mostras de ver ou entender o que estava escondido de todos ou permeando sua relação com o marido. Pensando bem, acho que tinha o olhar triste, velado por segredos de alcova que não compartilhava com ninguém. Tiveram filhos, ficaram casados muitos anos a despeito de todas as especulações familiares. Até que a morte os separou.

A imagem da noiva coberta com a mais pura seda pura, rosto sorridente de pura felicidade, emoldurado pela beleza da renda do véu, flores nas mãos e colar de madrepérolas na foto tirada no melhor estúdio da cidade faz-me pensar na muita, ou nenhuma, resiliência das pessoas diante das adversidades e das surpresas reveladas no cotidiano de qualquer casamento. Que motivos solidificam a união conjugal? Gaby teria sido heroína ou covarde, diante da sua revelação?

  

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