Povo dividido

Por: Sônia Machiavelli

396664

Com obra traduzida em 40 idiomas, o israelense Amós Oz, que esteve no Brasil em 2016, morreu em dezembro passado, aos 78 anos. Na autobiografia De amor e Trevas, ele contou como foi sua vida até os 14 anos. O livro desvela a busca de duas identidades- a do narrador e a de Israel.

Em relato não-linear, o escritor retoma de forma fragmentada a saga dos avós judeus na Ucrânia, para explicar como o antissemitismo levou ancestrais de volta à Palestina. Mas é a casa precária onde viveu sua infância em ambiente amoroso, o espaço que ocupa maior parte da história: “A única coisa que tínhamos em abundância eram livros. Incontáveis, de parede a parede, no corredor, na cozinha, na entrada e em todos os peitoris. Havia um sentimento de que todas as pessoas vão e vêm, nascem e morrem, mas os livros são eternos. Quando eu era pequeno, queria ser livro quando crescesse.”

A politizada Natalie Portman, atriz israelense ganhadora de um Oscar pela atuação em Cisne Negro, ao partir para sua primeira experiência como diretora, escolheu o livro de seu conterrâneo para levar às telas. Concluído há dois anos, já estreou no Brasil e agora está disponível no Netflix . É obra-prima que ilumina o conturbado período de 1945-1954: as cicatrizes da Segunda Guerra, a formação do Estado de Israel, o prenúncio dos conflitos no Oriente Médio.

A morte da mãe do narrador, Fânia, vivida por Portman, é o centro nevrálgico do relato. Linda e brilhante na juventude, foi perdendo aos poucos o viço, profundamente frustrada com o país de onde não jorraram o leite e o mel prometidos. Tragada pelo duríssimo cotidiano de comida racionada e bombas caindo a toda hora, suicidou-se aos 38 anos. Ariet, o pai, escritor fracassado e estudioso de filologia hebraica, ponto forte do judaísmo, era ferrenho defensor de um Estado judaico soberano. Nunca aceitou o fato de o filho ter ido para um kibutz aos 14 anos, trocando o nome da família, Klausner, para Oz, que significa “força”.

Mas foi ali, na comunidade autossutentável de organização democrática, que o jovem Amós Oz aprendeu a argumentar contra os radicalismos. A experiência o levará a escrever um livro de sucesso chamado Como curar um fanático, onde afirma que a essência do fanatismo é o desejo de forçar outras pessoas a mudar: “o fanático está interessado mais em você do que nele mesmo, pela muito simples razão de que o fanático tem muito pouco de “ele mesmo” ou nenhum “ele mesmo”.

Embora a vida no kibutz tenha ampliado sua visão de mundo, abrindo janelas à importância da convivência pacífica dos diferentes, isso já se mostrava inerente à sua personalidade desde a infância. Em cena que o filme recorta com a delicadeza do livro, Amós conversa com uma menina de sua idade, a quem diz que judeus e palestinos poderiam conviver em harmonia, sem contendas, em paz na mesma terra suficiente para todos- pois não eram, afinal, filhos do mesmo pai?

Não sei por qual motivo, ao ler essas palavras pensei no nosso Brasil, que anda tão dividido...
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras