Adequação vocabular

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A discrição se impunha, por isso fingia alheamento. No entanto, encompridava as orelhas, uma vez que a conversa de roceiros tem o dom de ausentar-me de obrigações outras. Traí-me ao ouvir a frase.

“Quando desci da jardineira lá no Aeroporto de Franca...”

Os interlocutores pareceram não se preocupar com a curiosidade do estranho, continuaram seus relatos, reveladores das dificuldades vivenciadas na cidade grande. O constrangimento recordou-me, porém, os compromissos, fui embora, levando, todavia, num dos bolsos do espírito o enunciado que permanece, semanas depois.

Debruço-me sobre os vocábulos, descubro razões. Quantas vezes, para ministrar aula de redação, o professor pesquisa compêndios, buscando fórmulas de traduzir para o aluno o que é inadequação vocabular. Os exemplos, retirados da Literatura, quase sempre estão longe do universo do estudante, e a gente fica frustrado com o resultado pífio depois de tanto esforço.

E o condão está ao alcance, presente em cada conversa. Desnecessário esforço, desnecessário suor, desnecessária queima de pestanas. Basta parar na esquina, sentar na praça, ouvir nossos irmãos e nos depararemos com inúmeras substituições de rodoviárias por aeroportos.

A consciência de tudo isso não me satisfaz.

Será que houve mesmo inadequação vocabular na frase ouvida? Pode ser. Mas de uma coisa tenho convicção. Existe lógica profunda. Para quem só viajara de carro-de-bois, de carroça, a cinco, dez quilômetros por hora, fazer uma viagem de jardineira, que atingia quarenta, cinquenta quilômetros por hora, deveria ser como se estivesse no interior de avião a jato.

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