Dara

Por: Angela Gasparetto

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Da porta da varanda, eu vejo Dara, uma cachorrinha que veio para nós em sistema de lar temporário, mas que quase todos os dias firma seu território em nossos corações.

Dara veio com o outono. Ela é a paz encarnada em meio a tantas tempestades que carregamos.

Assim como a estação da calmaria, acredito que ela veio para me tornar mais recíproca, mais calma e muito mais tolerante. Todos os dias sabemos que ela vai embora, mas todos os dias temos como optar pelo seu amor incondicional.

Parada com suas orelhas desproporcionais, ela nos dedica seu olhar amoroso de cão puro, independente de quem somos. Dara não nos conhece, mas já deve perscrutar nossos corações. Até porque depois que chegou, mudou o clima da casa e os sorrisos ficaram mais fáceis.

Atenta enquanto escrevo esta crônica, ela veio roçar os meus pés, eu que amo os animais, mas muito mais a minha liberdade. Mas o amor de Dara não tem fronteiras. Até porque seu último dono a colocou para fora e fechou todas as portas; a pior foi a do coração. Então Dara só quer alguém que a queira, mesmo uma dona martirizada entre a vida e a escrita.

Lá da janela já podemos ver o amarelar das folhas, e inesperadamente começará uma chuva de beleza e cor. Dara está parada me olhando como se esperasse minha decisão.

Todos já a amam, mas não sei por que, ficou decidido que se for para ela ficar, a decisão será minha e consequentemente serei eu a sua dona. Penso que Dara é animal puro; calma como o outono, grata pela vida em seu espreguiçar ao sol. O viver de um cão nos ensina muito, pois ele não precisa de sucesso e muito menos de dinheiro. Ele só quer alguém que o ame e aceite ser seu companheiro durante a sua fugaz e silenciosa vida. Então, de repente, começo a pensar que a maior liberdade que eu tenha, nunca mais superará o prazer em assistir a alegria moleca que Dara demonstra quando chego. Até porque a felicidade dela é constante, ou seja, Dara já é feliz por nós duas.
 

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