Despertar

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Um belo dia você acorda, se levanta, estranha o brilho do Sol lá de fora dos limites da janela. Nesse momento se apercebe que ele esteve ali todos os dias anteriores. Que você, cega, não o viu.

Um belo dia você acorda, se levanta e acha extraordinário poder espreguiçar-se longamente, espichando seus membros e sentindo os ossos estalarem. Nesse momento se dá conta de quantos prazeres simples você se negou em nome de boas maneiras.

Um belo dia você acorda, se levanta e acha o quarto diferente. Nesse momento nota detalhes que passaram batidos na correria do seu cotidiano: o cartão não respondido arquivado, mudo, como o criado mudo que o sustenta. A foto separada para ser posta num porta retrato de compra adiada há meses. O livro tão cobiçado, virgem por falta de tempo, na prateleira de baixo da mesinha de cabeceira.

Um belo dia você acorda, se levanta e se surpreende com a incrível vontade de chorar. Nesse momento dá à luz os bichinhos do arrependimento gerados pelas faltas cometidas, que ficam rodando na sua cabeça e lhe fazem pensar nos seus respectivos parceiros nessas concepções: a ausência voluntária da palavra amiga, o afastamento provocado de pessoas queridas, o gesto abortado de acolhimento, o silêncio diante de injustiças.

Um belo dia você acorda, se levanta e acha extraordinário poder abrir os olhos. Nesse momento entende que ver e enxergar - pelo menos através do prisma da emoção - não significam exatamente a mesma coisa. Ver, deste ângulo, significa apenas olhar para. Enxergar é entrever, ir fundo; pressentir, adivinhar. Abrindo os olhos para enxergar, muita coisa começa a fazer sentido. Muita coisa se transforma, como num caleidoscópio.

Um belo dia você acorda, não se levanta e tudo lhe parece estranho ao redor, no escuro. De repente estranha que sua mãe não tenha vindo lhe acordar para ir à escola. De repente estranha a cama, as paredes, seu próprio corpo. De repente os ruídos externos, os cheiros, as circunstâncias não lhe parecem familiares. É como se acordasse dentro de sonho ou dimensão diferente. A realidade lhe cai no cérebro de gota em gota, e você se vai dando conta de que muito tempo rolou desde aquele no qual dependia de alguém para lhe despertar. Percebe que esta nova circunstância tem apenas elementos seus, escolhidos e recolhidos durante a trajetória que você mesmo determinou. Nesse momento você se levanta.

Um belo dia você acorda, não se levanta e fica modorrando, sonhando acordado, imaginando, fazendo planos. Vira para lá, para cá, preguiçosamente, dando rumos diferentes para situações que já não têm mais jeito. Começa todas as frases com a hipótese “e se...?”, pergunta-se. E se eu não tivesse sido tão radical? E se eu não tivesse agido tão intempestivamente? E se eu tivesse me mostrado mais maleável? E se minha boca permanecesse fechada? Nesse momento você decide profundas transformações no seu comportamento e, com alguma sorte e muita determinação, começa um novo dia.

Um dia você não acorda, não consegue se levantar e não vai ver mais o Sol que brilhava lá fora. Tomara que tenham belas recordações de você!
 

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