Criação Infinita

Por: Sônia Machiavelli

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Fui criança num tempo em que havia poucos brinquedos disponíveis. Mas nos divertíamos mesmo assim, minha irmã e eu. Na rua, com outras crianças, todas imitando mães. Ninando bonecas de pano feias consideradas filhinhas bonitas; preparando comidinhas em latas vazias de leite Ninho e de extrato de tomate Elefante; correndo pra lá e pra cá no pique-de-esconder e no pique-de-pegar. Por essa época eu já gostava de ler e às vezes trocava brincadeiras pelo livro. Mas havia dias em que nem elas nem ele me bastavam.

No verão, nas férias de fim de ano, meu prazer era deitar de bruços no alpendre de minha casa e observar o trajeto das formigas rumo a umas rachaduras no piso. Instigava-me a ordem das fileiras, as folhas carregadas com equilíbrio, o toque leve de antenas, cumprimento que me parecia continência. O que comunicavam entre si?- me interrogava. Eram muitas as perguntas, e demorariam a ser respondidas. Naquele tempo a minha fantasia, que não revelava a ninguém, receosa de me acharem tola, era diminuir de tamanho, como Alice no País das Maravilhas, e adentrar a morada das formigas, aquele lá-dentro que minha imaginação, na falta de informações, fantasiava. Um dia descobri numa enciclopédia ilustrada as respostas que eu buscava. Nunca mais pisei nas formigas e intimamente censurava uma vizinha que procurava dizimá-las com iscas envenenadas porque destruíam suas roseiras.

No inverno, quando a noite caía mais cedo, o prazer era outro, mas me mantinha junto ao chão. De costas, olhava as estrelas, tentava ligá-las por uma linha imaginária. Naquela altura já havia aprendido que eram sóis a anos-luz da Terra. Devo confessar que me exigiu muito compreender essa medida. Aos poucos identificava constelações com mais clareza, em especial Três Marias e Cruzeiro do Sul. E quando li num poema de B. Lopes o verso “Aponta Vésper, brilhante”, quis saber que estrela era aquela. Foi minha mãe quem me disse conhecê-la também como Estrela d’Alva. D’Alva porque permanecia no céu mesmo depois de amanhecer. E Vésper porque era a primeira a despontar quando o Sol se punha. Mas foi um professor quem me revelou não ser estrela e sim planeta- Vênus.

Entre formigas e sóis, humanos e seres de outros reinos, chegou a hora em que me vi formiguinha ínfima em cima de melancia gigante em órbita solar. A sensação era estranha, reunia pequenez e pertencimento. Já adolescente, ouvindo Stardust tive de sopitar algumas lágrimas: por breve instante intuí a perfeita orquestração do universo. Acho que a isso chamam epifania.

Sentimento semelhante me acometeu nos últimos dias por conta da fotografia do Buraco Negro. Primeiro me surpreendi com o feito extraordinário da equipe de cientistas. Depois, com a criatividade de um deles, o professor Larry Kimura, que batizou o fenômeno de “Powehi”, palavra retirada de um antigo canto havaiano. Seu sentido é “fonte obscura embelezada de criação sem fim.” Jessica Dempsey, colega de Kimura, disse ter “amado a ideia deste nome para o objeto cósmico iluminado e iluminando a escuridão ao seu redor.”

Alma de poeta, os dois. Achei lindo e inspirador.

Feliz Páscoa, leitor!

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