Adubos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Hoje pouca gente acredita, mas era assim: o filho arranjava trabalho e entregava o dinheiro ganho para o pai, para ajudar nas despesas da casa, nos estudos dos irmãos menores. Por isso, quando ingressei no Banco do Brasil, mandava para casa mais de dois terços do que recebia por mês. Sobreviver com o restante era problema meu.

A necessidade faz o sapo pular, diz o vulgo. E faz a gente perder a vergonha, digo eu.

Alargaram a estrada Belém-Brasília, o progresso viajou por ela, levou até a cidadezinha a energia elétrica e a água encanada. E a Rádio Cultura de Ceres que precisou de locutores.

Maktub.

Houve tempo em que, não sei por que, me levantava às cinco horas, ia lá para a Rádio Hertz aprender técnica de som com o Agostinho Maniglia. Lá no sertão, escondi a timidez na mala, sob a cama, apresentei-me como experiente locutor, recebi o comando do programa sertanejo da emissora. E fiz mais sucesso que o João Batista, administrador da emissora e que, sistematicamente, iniciava seu programa de notícias com a frase:

 - Em Ceres são exatamente quase onze horas.

Certa vez, aliás, o homem comunicou à população, com voz grave e solene, que naquela manhã caíra um avião da FAB japonesa. Até hoje, a sigla identifica a Força Aérea Brasileira.

Luiz Maurício, colega de banco, era esperto, usou minha fama de radialista, levando-me para lecionar Português em seu Curso de Admissão. Ao final do ano, todos os meus alunos ingressaram no colégio da cidade. Fui homenageado.

Agradecendo, falei em público pela primeira vez na vida e, pela primeira vez na vida, ouvi uma música clássica - Serenata de Schubert, executada para mim em solo de violão.

Maktub.

Tanta lágrima de minha mãe, tanta dor da separação, tanto sacrifício, tão distante da casa paterna, tão distante dos amigos...

Maktub.

Tanto e tudo a adubar a planta.

E no coração de Goiás desabrocha a auto-confiança no coração do menino-rapaz tímido, desencantado e triste.

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