Verdade em chamas

Por: Ligia Freitas

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Tornei-me insensível diante de acontecimentos trágicos que não envolvem vidas.

A destruição da Catedral de Notre-Dame merece destaque, mas não nos enganemos, as obras da natureza são destruídas todos os dias e não ganham reclame em nossas páginas ou na televisão.

Em pouco tempo a França se pronunciou: a Catedral será inteiramente reconstruída em cinco anos.

Pergunto. Em quanto tempo os responsáveis pelo incêndio no centro de treinamento do Flamengo e pelo rompimento da barragem em Brumadinho devolverão as vítimas às suas famílias?

Conhecemos a resposta, com lágrimas de inundação.

Sim, um sofrimento não exclui o outro, a Catedral merece atenção, era um patrimônio cultural, histórico, social, político, religioso, arquitetônico, de uma grandiosidade sem fim.

Partimo-nos ao meio ao vê-la em chamas. A história dos parisienses agora se degola em terços e velas pelas ruas.

Ainda assim, digo que precisamos focar nas pessoas e não nas coisas.

Pago mil penitências pela minha heresia e um milhão de reais pela minha insensibilidade contra aquela nação.

Mas a verdade não me faltará com os meus leitores, ainda que seja um sincericídio.

Como dizia Cássia Éler: o mundo está ao contrário e ninguém reparou?

Num mundo de cabeça para baixo, onde socorrem cachorros de rua e maltratam pessoas de rua, precisamos ter foco nos nossos passos.

Num mundo onde investem em ter e não em ser, idolatram jovens e esquecem-se dos velhos.

Reinam os eletrônicos, descartam o contato térreo.

Enaltecem o poder, menosprezam a mão que rala no dia a dia.

Clamam por um monumento, se esquecem daqueles que se vão com o vento.

Num mundo de cabeça para baixo, é hora de pensarmos em tudo aquilo que não se reconstrói em cinco anos.

Pronto, falei.

Queimem-me em praça pública!


  

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