Anjos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A preocupação dos homens era com sua atividade mais constante ao longo da História, com a guerra, então disparada pelo nazi-facismo.

Ela, a mulher, por outro lado, esbarrara sempre nas muralhas muito próximas de um universo pequeno. Nem antes nem depois, nunca, pôde ouvir, sequer em livros didáticos, o trom dos canhões, a voz da metralha que ceifava vidas jovens. Nunca soube que, então, os homens inventavam brinquedos que desenhavam cogumelos que queimavam Hiroshimas.

A sua preocupação era do tamanho de sonho difuso: a mantença do trabalho do seu homem, a comida das crianças.

Seu marido se fora, levado por mãos piedosas, para um hospital na cidade grande, distante, onde seria submetido a cirurgias várias e que lhe preservariam a vida e a invalidez mais longa que as doutrinas salvadoras por que os homens lutavam.

A caridade explicou didaticamente para a mulher que seus limites eram limitados. Ela entendeu depressa, percebeu que tinha de segurar firme no cabresto.

Levantou muito cedo, arreou o cavalo, ordenhou vacas, despachou os latões de leite para o ponto, dependurados em lombo de burro. Depois, passou o resto do dia na carpa de lavoura, nas lides rotineiras do campo, espantando para longe do patrão a ausência do empregado.

As madrugadas de maio, de junho eram muito frias, por isso a mulher acomodava o filho de meses dentro da manjedoura, embrulhado em trapos, e acendia uma fogueira sob o cocho de madeira. Ainda hoje não lhe habita noção de risco, menor que seja. Acredita que o calor chegava ao leito improvisado, que seu anjinho dormia aquecido.

O tempo passou depressa, os homens continuaram guerreando por doutrinas e por metais, inventando brinquedos que machucam, que queimam outros homens.

O menino ficou velho e, criança, brinca de colher cacos na memória alheia, desenha veredas percorridas pela mãe.

Só não tem coragem de confessar-lhe que seu anjo perdeu as asas em guerras outras.

Estúpidas do mesmo jeito. 

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