Por uma cultura de paz

Por: Sônia Machiavelli

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Mantenho dois hábitos ao ler novo livro. Um deles é dobrar a pontinha superior da página quando um trecho chama minha atenção. O outro, grifar frases cujo sentido me surpreende por sua construção sintática, estilo original, fato desvelador ou capacidade de inspirar. Ao chegar ao final das 111 páginas de “O Inferno Somos Nós”, uma conversa do historiador Leandro Karnal com a monja Coen, todas as folhas estavam com as pontinhas dobradas e cada uma mostrava pelo menos uma frase grifada.

Encontrei o livro numa grande livraria, onde o título me atraiu por ser antítese ao do existencialista Jean-Paul Sarte- “O Inferno São Os Outros”; e ele piscou para mim, porque como já disse uma vez, há livros que me chamam. Comprei e, tão logo cheguei em casa, comecei a ler e não parei a não ser quando o diálogo se concluiu em aberto, deixando muito a refletir. As ideias permanecem comigo.

A obra é a transcrição de um bate-papo lúcido, amoroso, com viés algumas vezes psicanalítico, outras filosófico, sobre a questão da cultura de paz e como ela pode produzir com nova atitude, uma sociedade menos agressiva e menos cheia de preconceitos, capaz de evoluir em relação a uma posição mais tranquila. Tudo dito de forma simples e direta, sem malabarismos verbais, perfeitamente compreensível nas explicações sobre os medos que deflagram violências e intolerâncias , fenômenos crescentes no mundo.

Dividido em onze partes, todas têm potencial enorme para nos levar ao âmago dos problemas, sem flutuar na superficialidade. Uma das questões que mais me tocaram foi a relacionada ao medo. Diz Karnal: “Essa cultura de paz significa compreender que o medo é uma das origens da violência: aquilo que tememos, atacamos. Quando não entendemos, agredimos (...). É importante buscar a comunicação com o outro, estabelecer um contato prudente, especialmente com aquele de quem discordamos. Pois a todo momento temos a dificuldade das coisas circunstantes. A todo instante, as circunstâncias contrariam nossa vontade e submetem o nosso eu ao desafio de não ser onipotente, de não controlar as coisas. Por isso, para diminuir o medo, o conhecimento do outro é fundamental. Mas...o que mais existe nesse controle do medo que nos ataca?”

Responde Coen: “É o reconhecimento de que o medo existe e ele é, inclusive, um alicerce para nossa sobrevivência. Mas o medo não pode ser estimulado como tem sido para controlar populações e maneiras de ser no mundo. (...) quando somos criados em uma comunidade de medo, temos que, primeiramente, identificar nossos medos, depois saber se são adequados ou não. Voltamos então à única maneira de realmente conhecer em profundidade a nós mesmos, que é conhecer em profundidade o ser humano.”

Arremata Karnal: “Somos todos parecidos. E a raiva do outro que respinga em nós atiça, germina, umidifica a nossa própria raiva, que acaba estourando da mesma forma, em violência. Criar uma empatia com o outro, pode ajudar a superar essa cultura de não-paz.”

Vai ficar na minha cabeceira, “O Inferno Somos Nós”. Adquira seu exemplar, leitor. Contribua para que a queda na venda de livros no Brasil não supere o patamar dos 30% onde bateu no primeiro trimestre deste ano.
 

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