Chegadas e partidas

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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As lágrimas, derramadas em sua partida, transformaram-se em partículas de saudade que ele preservou no recôndito do coração. À medida que o navio Provence afastava-se do porto de Ancona, na Itália, seu olhar fixava-se naquela paisagem tão querida, como se quisesse retê-la, para sempre, na memória. Um oceano separava-o de seu destino. Em meados do sec. XX, o jovem escultor Giovani dedicar-se-ia à criação e modelagem de obras de arte sacra, em São Paulo. Convidado que fora para ornamentar suntuosas casas, capelas e sepulturas de bem sucedidos imigrantes italianos, estava feliz com os novos direcionamentos para o futuro que se anunciavam em sua vida. Coragem e talento, tinha-os, comprovadamente.

A viagem transcorreu tranquila e, em um belo dia de sol, sentiu o ardor do país tropical, divisou as serras verdejantes alongando-se pela costa e as ondas calmas quebrando na areia branca da orla. Suspirou diante de tanta beleza!

Em pouco tempo fez nome e prestígio. Com sua capacidade e espírito criativo, ia deixando mais belos e enriquecidos os espaços a ele confiados. Decidido a ficar, buscou por um amor que completasse sua vida. E ela estava bem perto, no mesmo bairro, uma moça lindíssima, alta, esguia, cabelos claros e dois olhos verdes que fulguravam de vitalidade e paixão. Casados, a vida deles era um eterno romance, viveu por ela e para ela. Sem filhos, viajaram muitas vezes à Itália, quando ela era agraciada com joias, casacos, perfumes e os mais diversos mimos.

Mas, como diz o Salmo 102 de Davi, os dias do homem são como as flores do campo, apenas sopra o vento, já não existem. Ela adoeceu e o deixou logo após. Em sua lápide, ele se esmerou e adornou-a com esculturas de anjos orando, incrustrados em placas de mármore. Sem ela, Giovani não se sentia bem na nova pátria e decidiu voltar.

A chegada, desta vez, não remetia ao sabor de tantas outras. Tinha o gosto da solidão. Era um homem realizado, tinha vivido um amor grandioso e viveria, na sua terra natal, seus últimos dias, acalentados pelas belas recordações e pelo brilho da sua arte.

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