Ronda, Andaluzia

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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A industrialização dos países do norte da Europa durante os séculos XVIII e XIX trouxeram consigo a destruição de paisagens naturais e a consciência do desenraizamento cultural, devido aos movimentos demográficos entre o campo e a cidade. A perda daquele paraíso natural propiciou, principalmente, que jovens da alta sociedade embarcassem numa viagem sem precedentes, o denominado Grand Tour, em busca das raízes da civilização, tradição que se manteria até o começo do século XX. Os restos arqueológicos - ruínas da Grécia e Itália, paisagens sublimes das grandes montanhas europeias ou a Espanha pitoresca foram seus destinos favoritos. Longe da influência e da ilustração do domíno da razão, o atrativo se concentrava nas sensações que ofereciam a experiência do real sobre os sentidos. Nas descrições fazem uso intenso de adjetivos como sublime, enorme, fastuoso, espetacular, etc, termos que descrevem paisagem idealizada pelo olhar de artistas e escritores. Tais viajantes românticos conseguiram que a Europa rica do norte se fixasse no sul e encontrasse naquelas paisagens, como esta da ilustração, um pedacinho de seu paraíso perdido. Suas obras – novelas, poesia, guias e ilustrações, ajudaram a forjar o típico que ainda hoje acompanha o andaluz como objetos símbolos de toureiros, dançarinas e bandoleros , mas também os ajudaram a valorizar patrimônio e tradições. Com seus apaixonados testemunhos impulsionaram no início centenas, milhares, e hoje milhões de pessoas a empreender a mesma viagem. São muitos os nomes de viajeros romanticos que contribuíram para que Andaluzia e Ronda se tornassem importante destino turístico. Porém, obras como Cuentos de la Alhambra, de Washington Irving (1832); Manual para Viajeros em España, de Richard Ford (1844); La Biblia en España de George Borrow (1843), que inspiraria outras como Carmen de Merimée - posteriormente adaptada como ópera por Bizet - foram as que mais influência tiveram em outros países, principalmente Alemanha, França e Inglaterra. No século XX personalidades universais atraídas pela tauromania acabaram por forjar a imagem da Ronda imutável e romântica. Ernest Hemingway, Rainer Maria Rilke, Orson Welles, Juan Ramón Jiménez, Gerardo Diego, Alberti, Garcia Lorca, pertencem à lista de artistas e intelectuais que elogiaram Ronda ao longo da história. Poucos destinos no mundo podem se orgulhar da beleza, riqueza e singularidade do município declarado Patrimônio Histórico-Artístico há mais de 50 anos. Ronda é cidade que tem o peso de séculos e civilizações e preserva vestígios de quase todos esses períodos: o teatro romano esculpido em parte da rocha; os banhos árabes mais bem preservados da Espanha; a Puerta de Almocábar. A cidade, considerada berço das touradas, tem a mais antiga da Plaza de Toros espanhola - a Real Maestranza de Caballería de Ronda, que é uma grande arena por onde passaram alguns dos mais famosos toureiros de todos os tempos. A Plaza foi construída em 1785, e permanece como etapa essencial do calendário mundial de touradas.


(Texto baseado em informações exibidas em cartaz da Unesco, à borda dos penhascos de Ronda)


  

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