O jacaré da minha infância

Por: Angela Gasparetto

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Acredito que todos nós à medida que amadurecemos, mais e mais procuramos as referências de outrora. Então, eu declaro: Ainda procuro o sabor do “jacaré” da minha infância.

Para quem talvez não saiba, “jacaré” é um pãozinho recheado de leite condensado, ou outro ingrediente. Mas na minha infância acredito que era com um misto de fio de ovos e com algum outro recheio, ou seja, era maravilhoso!

Lembro-me de minha mãe deixar autorizado para que eu e minha irmã pegássemos pães e jacarés na padaria perto de casa. Isso era motivo de alegria, liberdade e principalmente gratidão, pois se minha mãe abria aquela exceção era porque realmente ela se preocupava conosco. Digo isso porque naquela época ficávamos em casa sozinhas enquanto ela trabalhava fora, ou seja, uma irmã cuidava da outra e tínhamos apenas sete e nove anos.

Então, o jacaré vinha quentinho com o recheio derretendo e não conseguíamos esperar até chegar em casa para comer; vínhamos nos lambuzando pela rua mesmo.

Há vários sabores que me remetem à infância, as tais memórias afetivas, mas que para mim são na verdade memórias degustativas...

Lembro-me também do formato do pão que era vendido, ou seja, não me recordo se já havia os pãezinhos franceses de hoje; sei que o nosso era um tipo bengala, mas mais largo. Então, sentadas uma frente à outra, nós o dividíamos ao meio milimetricamente e festivamente o comíamos com café e leite, cientes da peraltice gulosa e felizes pela rara liberdade. Lá fora só se ouviam o vento no abacateiro velho e nossas risadas travessas.

Guardo outros sabores como o do jatobá da estrada indo para a cidade, dos coquinhos amarelos do terreirão de café, das jabuticabas da minha madrinha, dos pés de moleque e dos chorões que minha mãe fazia. Eu me repito nessas lembranças, porque são realmente doces memórias, daquelas de quando nos deparamos com o novo pela primeira vez e de quando somos cuidados pelos nossos pais.

Hoje, no Dia das Mães, sinto que havia muito da enérgica e amorosa participação da minha mãe nesses singelos sabores que experimentamos. Até no maravilhoso jacaré que ela não fazia, mas que nos possibilitava degustar naquelas manhãs divertidas. Nunca mais encontrei aquele sabor do jacaré da minha infância. Ainda procuro.

Procuro muitos outros sabores, pois acredito que os mesmos, além de nos remeter às memórias afetivas, são um traço indelével de quem somos.

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