O Vestido de Noiva

Por: Thereza Rici

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Zelinda acordou, olhou para o relógio e viu que já passava das seis horas. Ficou por alguns minutos enrolada nas cobertas, pensando que não tinha mais obrigação de levantar tão cedo. Estava aposentada há muito tempo e seus objetivos na vida eram praticamente nulos. Mas, mesmo assim, pulou da cama, abriu a janela com intenção de fazer uma caminhada, mas olhando para o céu percebeu que este, carrancudo, anunciava as chuvas que logo em seguida caíram torrencialmente.

Impossibilitada de sair caminhando pelo bairro arborizado onde morava, gozando do sol morno da manhã, andou pela casa, quando deu com a porta do quarto de sua mãe que permanecia fechada desde a sua morte. Pensou que já havia passado um ano de sua partida e não tivera coragem de entrar naquele aposento.

Entretanto, naquela manhã, como a chuva caía forte lá fora, Zelinda parada na porta do quarto, movida até pela solidão que sentia, pensou que não deveria adiar mais, tinha o dever de limpar o aposento dos objetos deixados por sua mãe e que deveriam ser doados ou descartados. Sofreu muito com a sua partida e desfazer de suas coisas era para ela muito doloroso. Daí o adiamento. Mas, naquele momento, achou que teria chegado a hora. E foi pensando assim que entrou no quarto, abriu as janelas de par em par, deixou o ar frio daquela manhã feia e chuvosa entrar sem cerimônia e parada no meio do quarto, passou os olhos pelo aposento, verificando por onde começaria a arrumação.

Tudo estava na mesma ordem que sempre estivera. No criado mudo o porta retrato, com as figuras de dona Corina, do seu Joaquim seu pai e dela mesma, ainda muito jovem. O relógio continuava marcando o passar das horas. A cama com a colcha que ela mais gostava. Seus chinelos descansavam no assoalho na beirada da cama, os travesseiros arrumados. O guarda-roupa com suas roupas penduradas. Por fim, acabou encontrando num canto o baú de couro e madeira, presente de seu casamento. Olhou para aquele baú grande e antigo e pensou que nunca tinha tido a curiosidade de saber o que sua mãe guardava, no seu interior.

Abriu o baú e foi trazendo para fora, roupas de festas antigas de sua mãe, gravatas e ternos velhos de seu pai, muitas fotografias da família de vários períodos de sua vida, uma caixa de joias e lá no fundo, surpreendida e emocionada, com o coração aos pulos e as mãos tremulas, retirou o seu lindo vestido de noiva, cravejado de perolas, vestido, que por ironia do destino, nunca usou.


 

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