Pela não-violência

Por: Dione Castro

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Sathya Sai dizia: “Não-violência significa evitar causar dor a qualquer ser em pensamento, palavra e ação. Com egoísmo e auto interesse, o homem não experimentará esta estimável virtude. Todo o mal nasce do senso de ‘Eu’ e ‘Meu’. Estes traços só podem ser eliminados através do desenvolvimento da pureza de pensamento, palavra e ação”.

Nós do ocidente estamos acostumados com o senso de propriedade alinhando ao egocentrismo. Uma verdadeira ideia cinzenta racional do “eu no centro de tudo”. Este pensamento de proprietário que expõe delimitações de onde começa e termina “seu território” adveio do pensamento progressista, reflexões de acúmulos de riquezas, revoluções conceituais na ciência política entre outras circunstâncias ligadas umbilicalmente à formação de “Estados” e suas soberanias.

Observa-se que somente existimos pelo fato de haver um local que proporciona a condição de viver. Antes mesmo do nexo da causalidade da concepção do ser, sabe-se que somente é possível por ter um local que proporciona a condição de possibilidade de vida. Mas este local não precisa ser delimitado. A condição de vida biologicamente vincula-se à possibilidade de concepção, posteriormente o desenrolar evolutivo intrauterino e posteriormente o desenvolvimento após o nascimento.

Todavia, é preciso cunhar a qualidade de vida. Viver não é somente bater o coração, é preciso haver dignidade. Indaga-se: o contrário de morte é o quê? Ao fazer esta pergunta a algumas pessoas, a massa responde com convicção que a extremidade de morte é vida. Ora, a outra ponta da morte não é vida, para chegar ao fim precisa antes constituir-se. Ou melhor, tudo que é materialmente finito para existir precisa ser criado, de algum modo precisa nascer. Então, não posso dizer que o extremo de morte é vida. A outra ponta da morte é o nascimento, tudo que nasce um dia morre.

Vida é uma verdade plena, pois ainda que não haja o nascimento de um ser ela está em qualquer lugar do planeta. Esta verdade não deve ser interpretada em seu significado semântico, deve ser entendida como aquilo que é. Somos independentemente do que racionalizamos e criamos. As destruições que fazemos no meio ambiente em que vivemos em troca de algo imaginário como o capital, ocorre justamente por não termos o discernimento de que somos parte de tudo isso, não donos disso.

Somente existimos por circunstâncias biológicas, sobretudo por consequência cósmica, por haver condições de sobrevivência. Não faz sentido destruirmos o local onde vivemos. O senso de não violência traduz um entendimento plural. A violência não está unicamente em nossas condutas, mas está também dentro de nós. Lembro-me de uma passagem de dois monges que fizeram pacto de não tocar em mulheres. Eles precisavam atravessar uma ponte para chegar do outro lado do rio, mas no meio da ponte se depararam com uma pessoa se afogando. Era uma mulher, um dos monges não pensou duas vezes e logo saltou em direção a ela para salvá-la. O outro permaneceu na ponte. Após salvá-la, o primeiro monge deixou-a e continuou o caminho com seu companheiro.

O segundo monge indignado ficou martelando sobre o primeiro, ele não era mais puro, pois quebrou o pacto feito. Em todo caminho havia a lembrança de que não poderia ter tocado na mulher. O primeiro monge, sereno, sabiamente disse: _ O que poderia fazer, deixar morrer? Eu a salvei e a deixei lá atrás, na margem do rio, mas você ainda não a deixou. Está com ela até agora.

Diante disto, digo que a violência está também dentro de nós. Ainda que não tomemos nenhuma ação ou omissão, ficamos martirizando no pensamento ocorrências que já fazem parte do passado. Não controlamos o futuro, e não conseguimos mudar o passado. O que nos resta? Resta-nos permanecermos, contemplarmos o presente. Respire. O princípio da Não-Violência consiste a não causar dor em nenhum ser, isso também vale para nós. Não causar dor a nós mesmos.

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