História de superação

Por: Mario Eugênio Saturno

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Em janeiro deste ano foi sancionada pelo Presidente da República a lei que declara o advogado Luiz Gama como “Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil.”

Na verdade, Luiz Gama não era advogado. Foi um rábula autodidata genial. Rábula era o nome que se dava a quem, mesmo sem diploma universitário, demonstrava conhecimentos que o habilitavam à prática do Direito. Gama recebeu o título “Advogado da Ordem dos Advogados do Brasil” em 3 de novembro de 2015, 133 anos após sua morte. Foi um reconhecimento tardio por seus serviços jurídicos prestados à causa abolicionista. Na cerimônia, Luiz Gama foi representado por um descendente, Benemar França, que só veio a tomar conhecimento de seu antepassado quando um professor de História pediu aos alunos que pesquisassem a genealogia de suas famílias.

Luiz Gama nasceu em 1830 em Salvador e faleceu aos 52 anos, em São Paulo. Foi um escravo liberto que se tornou libertador, pela via judicial, de mais de 500 negros escravizados. Em sua biografia, ele se descreve como filho natural de uma africana livre, da Costa Mina, de nome Luíza Mahin, pagã que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Quanto ao pai, de quem ocultou o nome, era de origem portuguesa e seria rico. Havia recebido boa herança de uma tia em 1836, mas a esbanjou prodigamente. Depois, a 10 de novembro de 1840, vendeu o filho como escravo.

E assim Luiz Gama permaneceu até 1848. Depois de aprender a ler e conhecer algumas leis, conseguiu provar que nascera livre, ou seja, estava escravo ilegalmente. Uma vez liberto, exerceu diversas atividades e profissões: foi doméstico, soldado, ordenança, copista, tipógrafo, jornalista, “advogado” e autoridade maçônica. Mudanças incríveis, de criança livre a escrava, de escravo a homem livre marcaram sua existência.

Também passou de analfabeto a homem de letras, com a publicação de “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”, em 1859. Neste ano nasceu seu filho Benedito Graco Pinto da Gama. Somente em 1869, Luiz Gama se casaria com a mãe de seu filho, uma mulher negra chamada Claudina Fortunata Sampaio.

Embora seja pouco conhecido no Norte do País, em São Paulo, em cada comemoração do “13 de Maio”, data da assinatura da “Lei Áurea,” Luiz Gama era homenageado. E constou como única personalidade afro-brasileira nos manuais de instrução cívica até os anos 50 do século passado.

Cabe ressaltar que havia outros negros que trabalharam em prol do abolicionismo, como os jornalistas Ferreira de Menezes e José do Patrocínio; e o engenheiro André Rebouças. Mas somente Luiz Gama passou pela escravidão. E apenas José do Patrocínio, filho de uma escrava negra e de um padre branco, fez o relato de um breve período de sua vida em um artigo polêmico publicado em 1884 em seu jornal Gazeta da Tarde.

Há quem trace paralelos entre a vida de Luiz Gama e as vidas de alguns escritores negros norte- americanos, como Frederick Douglass (1817-1895) e Booker T. Washington (1856-1915). Em todos os casos, não se pode deixar de observar o papel que o estudo exerceu na vida destes revolucionários abolicionistas. São todos exemplos de superação.
 

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