'Tiada' (fora da caixa)

Por: Sônia Machiavelli

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Nunca havia lido um livro construído apenas com diálogos, como “Tiada”, do escritor francano Manoel Ilson Cordeiro Rocha. Surpreenderam-me a ousadia, o esforço, o desafio, o resultado final que faz pensar num Brasil pouco conhecido.

Lançada recentemente pela Ribeirão Gráfica, a obra não oferece qualquer introdução de um hipotético narrador a costurar falas, mudança de tempo, trânsito por lugares diferentes, percepções . Ao transferir somente a personagens a tarefa de contar uma viagem, que se faz no presente com direito a retornos ao passado remoto, o Autor arriscou-se a se perder, pois nessas condições o tecido textual pode desfiar, o que não foi o caso. Nos diálogos, que nos remetem à tradição da dramaturgia, muitos personagens convidam a todo momento o patriarca, que nomeia o livro, a narrar histórias de sua mocidade.

Não é um romance, conforme consta do índice de catálogo sistemático, porque não existe conflito algum, coluna vertebral de toda ficção que se alinhe a este gênero. Também não é novela, onde os embates são ainda mais solicitados. Para ser crônica de costumes faltaria um aprofundamento que desvelasse com mais detalhes o meio no qual os personagens agem a partir de uma longa cadeia de causa e efeito.

“Tiada” fica fora da caixa, e isso me incomodou de início, até que eu me perguntasse por que, afinal, uma escrita literária precisaria estar dentro dos modelos convencionais. A partir daí li o livro com outro olhar. Acompanhei um casal urbano e seus dois filhos em visita aos pais octogenários dele, cercados por grande número de parentes e amigos no interior profundo do nosso país. Conheci admirada algumas dezenas de topônimos que nem constam do mapa do sul da Bahia/norte de Minas. Admirei uma legião de idosos e pessoas de meia idade que mantêm na ponta da língua os nomes mais antigos e os mais recentes de sua árvore genealógica: com frequência resgatada junto a outras, ela contribui para formar rica flora no cenário humano no qual Tiada pontifica como contador de casos. Percebi o acúmulo de memórias que afloram através de conversas rápidas mas não superficiais. Encantei-me com gigantesca ciranda que se mantém unida pela força da amizade, da lembrança, da palavra. E ouvi um coral de centenas de vozes que cantam com respeito a história de gerações que vão construindo nosso país.

Concluí que a importância do livro está em mapear um itinerário geográfico/familiar/ sentimental que, ao fixar na escrita fragmentos de experiências pessoais, faz emergir um espaço rural que ainda resiste e onde grandes dificuldades são sobrepujadas com trabalho, coragem e sabedoria. Daquele tipo que induz o filho letrado a dizer para sua mulher professora: “Papai é o sertanejo de Guimarães, mamãe é Graciliano”. Fica clara a alusão ao caráter que se forja na luta em meio adverso, onde o homem, essa maravilha da criação, encontra, em estilos peculiares, jeito de sobreviver. E de acrescentar à sua existência uma experiência deste mundo que de tão vasto leva a mulher de Tiada a dizer de forma cândida, só aparentemente factual: “O sertão tem muita comunidade”. Uma frase que poderia ser atribuída a Riobaldo. A Diadorim. Ou ao criador deles.  

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