Como é mesmo o seu nome?

Por: Angela Gasparetto

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Aperta minhas mãos, me fixa intensamente e diz: “Você tem olhos claros! Os meus são castanhos. Na minha família todos têm olhos castanhos...”
Diz isto em um misto de surpresa e tristeza. Olha para o meu marido e diz: “Ele também tem olhos claros! “Só que não...” Se distrai, olha para o lado e volta:-
“Como é mesmo o seu nome”?” Eu digo: Ângela; e ela: ”Como um anjo...”.
Sorrio porque quando era lúcida, sempre me dizia a mesma coisa.

“Leva-me para passear?” Começa.
“Que dia é hoje”?
“Eu vou morrer aqui, né”?
“E minhas irmãs, quando vêm? Como vim parar aqui? Leva-me para passear”?
“Gostaria que morassem aqui comigo! Vamos alugar um quarto aqui?”
“Eu espero vocês todos os dias”.
Meu coração se confrange.

Tento responder suas perguntas, com respostas interessantes, com humor e com solidariedade. Prometo levá-la a passear na próxima semana.
Seus olhos perscrutam a minha alma. Olham direto para mim. Dependendo da minha resposta, e se sorrio, ela diz.
“ Vocês estão zombando de mim! Eu sou a palhaça-mor aqui?” – Eu nego, digo que não e assim vai. Ela recomeça:
“Eu vou morrer aqui, né? Como vim parar aqui?”
Respondo que ela não vai morrer ali, que foi para lá para descansar, se tratar, dormir melhor. É um lugar bom.

Joga-se para trás na cadeira e olha os outros pacientes que estão em volta também com visitas. Com olhos esbugalhados, ela aperta minhas mãos:
“ Eu tenho medo deles, filha; não quero dormir à noite aqui”. “Tenho medo”.
“E meu pai?”
Tento dar respostas animadoras, digo que as irmãs (todas já falecidas) virão depois, estão em casa, e que o seu pai, este já foi para o céu.
E ela: “Como, se eu o vejo todos os dias”? Fico sem resposta.

Na outra visita ela recomeça:
“Como é mesmo o seu nome?” Eu digo: Ângela; e ela: ”Como um anjo...”
“Você tem olhos claros! Os meus são castanhos, né? “

Em seguida fica em silêncio, depois faz gestos de como quem toca piano e diz:-
“Toquei piano a noite toda”. “A música, a música, ela fica na minha mente o tempo todo”. Você está ouvindo?

Digo que sim e tento conversar assuntos diferentes, falo do tempo, das flores do jardim, da comida e a convido para passear. Vamos juntos na alameda conhecida. Ela vai falando que não gosta das flores vermelhas, ou das escuras, apenas das claras, rosa e lilás.

Para pela milésima vez em frente à placa de inauguração e lê pela milésima vez o mesmo texto, se mostrando surpresa também pela milésima vez e perguntando então em que ano estamos. Respondo. Pergunta a sua idade, a nossa idade. Fica em silêncio.

Mas ela tem os dias de profunda irritação em que durante toda a visita se recusa a abrir os olhos. Permanece por todo o tempo de olhos fechados, conversa e passeia conosco de olhos fechados. Não os abre nunca.

Cada dia é um dia. Tem os dias da rara normalidade, nos quais fico tão animada quando ela se lembra de nossas conversas do passado. Ela chega plácida, sorrindo, muito educada e conversa sobre todos os assuntos com a mais absoluta lucidez e com a incrível perspicácia costumeira.

Mas o que me intriga são os dias não bons, os dias de anormalidade. Dentro do turbilhão que, sinto, ela traz consigo, vejo uma incrível autocrítica, uma profunda consciência deste mundo insano em que vivemos e que para ela é impossível suportar. Vejo isto nos seus olhos; o que me faz pensar que a lucidez extrema pode muitas vezes nos enlouquecer.

Em várias visitas, depois de todas as perguntas repetidas de sempre, vejo o seu embaraço em não se lembrar do meu nome nunca.Mas depois de vários encontros sem me chamar pelo nome, e nem perguntar, um dia, de uma hora para outra, ela tomou minhas mãos e disse: “Ângela! Como um anjo...” e as beijou.

Neste dia fiquei profundamente emocionada. No caminho de volta para casa fui pensando que somos passageiros neste mundo. E nessa viagem inescrutável somos apenas um ponto no universo e muitas vezes o que nos move e nos consome é apenas a nossa consciência ou a falta dela.
 

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