As mão e o mel

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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As protuberâncias enfeitavam a palma da mão, os dedos grossos, quase roliços. Nas costas das mãos havia manchas escuras, cicatrizes de muitos tamanhos. Eram mãos pesadas, mas o homem tinha coração leve, a alma de passarinho. E era sempre apaixonado.

Era apaixonado pela terra, e suas mãos pesadas e ternas acariciavam-na, massageavam seu corpo, dele arrancava todos os pelos inúteis – daninhas ervas que insistiam em reduzir a exuberância do amado corpo feminino.

A terra gostava de ser amada.

Recebia o amor, guardava- o no seu útero, enfeitava-se durante meses e, quando alcançava o auge da formosura, retribuía o afeto do pai e da prole. Paria favos de mel, de frutos, de arroz, de feijão...

Com os dedos entrelaçados, as mãos do pai se foram, e foram substituídas pela máquina e pela voz do dono da máquina.

E ela pisoteia, com pés de gigante, pelos miúdos e graúdos, deixando desnudas as partes virgens do corpo da terra. Nos cimos e nos vales, por todos os cantos, ouve-se a voz do dono da máquina e das engrenagens da máquina. E a voz imperativa repete um só vocábulo:

Produtividade, produtividade...

Gradativamente, a terra vai perdendo o verde de suas faces, cada vez mais tomadas pelo amarelo da anemia.

A música, que minava de seus muitos olhos e corria quase oculta em meio à vegetação, vai secando como se o sol, esfomeado, necessitasse até de alimentos miúdos. E o choro agora chega em forma de água barrenta e bravia, engrossando o bloco formado pelo céu e pelas nuvens e pelos trovões e pelos raios bravios que, de quando em quando, se desmancham e desmancham.

O corpo da terra é picado e repicado por agulhas estimulantes, que a fazem produzir em dobro, em triplo.

A ternura se foi com as mãos pesadas e leves do pai.

Agora a saudade cobre as manhãs e as tardes e as noites. E a terra só registra o abandono e a solidão.

Por isso, ao invés de favos, hoje ela só consegue partejar bílis.

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