Maria Doida

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

De repente, quebrando o silêncio da rua na tarde ensolarada da pequena cidade ao pé da Canastra, ouvimos gritos histéricos, batidas de portas, de portões de ferro. Cães histéricos ladrando, parecia matilha de centenas deles. Eram poucos, mas atiçados por reações barulhentas, dava para apostar, sem visualizá-los, serem muitos, muitos mais.

O silêncio na rua era tal, que pareceu ser cortado por faca afiada, como a que Lúcia do Oripim, a vizinha da frente, usa para cortar as carnes de porcos e vacas que prepara para festas e reuniões, junto com a mãe, d. Alzira do Chiquinho. “É Maria Doida!”, aquela que odeia cachorros e homens.

Encontrando cachorros soltos nas ruas, ela sai chutando o vento, bate os braços como afogada, grita impropérios, chama os donos que imagina serem deles, que ela nem conhece, por nomes impublicáveis, atiça-os, faz que vai bater neles, eles ameaçam de volta, a bagunça é geral.

Maria Doida, ninguém sabe como e quando ganhou o apelido. Era casada com rapaz paulistano, ninguém sabe também detalhes do relacionamento, como se conheceram, como se apaixonaram, como se casaram. Apenas que tiveram duas filhas. Hoje, jocosamente, é chamada assim, Maria Doida, mas era a Maria da Liosa, nome de sua mãe, como é costume neste canto, no pé da Canastra.

Costume interessante, o que reforça, acho eu, a importância do matriarcado por estas paragens, ao pé da serra. Oripim, por exemplo, hoje ainda e há muito casado com Lúcia, é conhecido tanto como Oripim da Aparecida do João de Barro, como Oripim da Lúcia da Alzira do Chiquinho.

Mas Maria Doida nem sempre foi assim, afirmam. Foi casada, cozinhava, lavava, passava, mas dizem que não era chegada a sexo. Ela mesma contava que toda vez que o marido a procurava, Maria da Liosa dava-lhe QBoa e álcool para higienizar o aparelho reprodutor. Mesmo com desinfetantes, tiveram duas filhas. Uma delas, muito, muito bonita, que se apaixonou e, mesmo contrariando a mãe, marcou casamento com seu amado. Ele não era da cidade, mas Maria da d. Etelvina diz que combinavam muito, que andavam juntinhos pelas ruas sem calçamento de pedra, prateado pelo luar da serra. Maria da Liosa mostrava seu ódio e contrariedade pela união. Esbravejava, tocava o rapaz de casa, mas eles permaneciam unidos. Um dia, a moça deve ter se sentido tão atormentada, ninguém sabe o que houve, foi para a beira da represa e, algum tempo depois, encontraram-na morta. Tinha se afogado. Desde então Maria Doida exterioriza profundo ódio por homens. Brancos, pretos, novos, velhos, bonitos ou feios. Como que embriagada, sai pelas ruas batendo nos cachorros que ela provavelmente confunde com os homens e chama-os todos pelos piores nomes.

Suicídio ou acidente? Nunca esclarecidos, ficou a dúvida. Foi enterrada num caixão branco, com o vestido que usaria no casamento, coberta de flores.


 

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